Um debate ainda imerso em preconceitos, que se dar nos meios acadêmicos e na esquerda brasileira, espaços que respiram conhecimento filosófico e científico, numa sociedade do senso comum, devemos ou não devemos falar sobre futebol. Afinal, futebol é uma das principais ferramentas na formação de uma cultura de massas burguesa e nesta condição de ferramenta é muito utilizado para aguçar o senso comum e alienar o povo de sua condições objetivas reais, neste sentido, o futebol é tratado como "ópio do povo" e realmente é mesmo.
No filme Batismo de Sangue do diretor Helvécio Hatton, há uma sena simbólica, no momento em que "Frei Betto", o personagem, está fugindo do DOOPs, no Rio Grande do Sul, ele entra em um boteco, o jornal da uma notícia extraordinária na TV, sobre a morte de Carlos Marighela, revolucionário líder da ALN, as pessoas comuns no boteco, olham a TV, ouve a notícia, e uns caras na mesa, viram um para o outro e diz "você viu o chutaço de Rivelino? Hoje não tem o milésimo gol de Pelé", certamente estavam jogando Corinthias X Santos. Frei Betto olha como se dissesse, é por isso que eu estou fugindo? É por isso que eu estou correndo o risco de ser morto?
Seja em qualquer boteco de esquina ou mesmo nas igrejas pentecostais ou neopetencostais, espaços consolidados como os de mais rasos senso comum, o futebol é sempre um tema da moda, tem sempre alguém falando sobre futebol, de forma rasa, fluida e superficial, bem na lógica do torcedor apaixonado, incapaz de fazer uma leitura crítica sobre o tema, principalmente quando se trata de Flamengo, Corinthias e Bahia.
Estes três clubes do futebol brasileiro que durante os anos 80 do século passado foram eleitos os clubes da "moda" pela grande mídia burguesa, Flamengo e Corinthians numa escala nacional e o Bahia, mais restrito ao estado da Bahia, pessoa sem muita capacidade de formular para além do senso comum se tornaram torcedores destes clubes, afinal, havia por parte da grande mídia, em especial a Rede Globo de Rádio e TV uma cobertura excessiva a estes clubes, em detrimento dos demais, fato que deixou de ocorrer em relação aos dois últimos mencionados, mas que persiste acontecendo em relação ao primeiro, e ao que me parece seus torcedores ainda não se deram conta de que são massa de manobra da Rede Globo, claro que não estou sendo generalista, mais que 70% dos flamenguistas, são completamente alienados, quando a questão é o amor pelo clube, na atual conjuntura não é mais um privilégio dos flamenguistas a alienação. A alienação dos torcedores hoje é algo natural, alienação em relação ao futebol, e alienação em relação à todo o resto do mundo, mais esta situação é perdoável, dado o processo de dominação da ideologia burguesa sobre a sociedade neste momento da história.
Nos meios acadêmicos e na intelectualidade de esquerda, falar de futebol ainda é um Tabu, ainda há muita resistência em se discuti o tema. Para mim, até bem pouco tempo, me parecia inconcebível discuti futebol sem me opor a tudo que está sendo proposto para o esporte, com uma racionalidade política ideológica, mais muito fundamentado nesta perspectiva das esquerdas de que futebol, assim como a religião é o "ópio do povo". O que também não está errado, mais acho que hoje esta análise deve ser ampliada, a partir de um olhar holístico.
Desde a copa do mundo de 1990 deixei de torcer para a seleção brasileira, quando comecei a perceber que a CBF, a FIFA e todas as federações de futebol do mundo combinavam os resultados da competição a partir dos interesses econômicos em disputa. E perdi a paixão pelo meu clube do coração, quando descobrir que o futebol assim como qualquer outra coisa no planeta estava e continua, a serviço do grande capital especulativo.
Mas, desde que comecei a fazer algumas leituras sobre cultura, tendo como base pensadores da chamada Escola de Frankfurt e ler o intelectual e militante Italiano Antônio Gramsci, passei a olhar o futebol por outros prismas. Claro que mantenho meu olhar crítico sobre o processo de "coisificação" do futebol e manterei isto para sempre, e não só em relação ao futebol, mas, em relação à tudo que o capitalismo tem coisificado nos últimos 100 anos. Contra o capitalismo toda a minha capacidade de formulação e práxis militante.
Mais em decorrência destas minhas releituras políticas, entendi que não há como perder em perspectiva que o futebol é parte fundamental da cultura popular brasileira, exatamente no momento em que a burguesia utilizou o futebol como um argumento burro, mais que conquistou milhões de brasileiros e brasileiras para sua causa. O discurso imbecil de que "o governo Brasileiro havia gastado recursos públicos da saúde e educação para fazer estádios para a copa do mundo de 2014 no Brasil", discurso que comprou inclusive profissionais da educação em todo o pais. Lembro-me que cheguei na escola que trabalhava e um colega de história tinha feito um trabalho com seus educandos sobre os gastos do governo com a copa do mundo e que estes recursos eram da educação e saúde, uma discussão pobre, rasa, sem aprofundamento teórico algum, faltando completamente com a verdade. Ali percebi que não dava mais para negligenciar este debate importante para ao menos 60% da população do país.
Meu processo de superação dos meus preconceitos e meu desprendimento dos conceitos radicalizados que construir ao longo dos meus 40 anos de militância orgânica na esquerda tem sido lento, confesso. Moço como foi difícil torcer para a seleção brasileira na última copa do mundo, até porque pense em um time ruim, mal convocado, mal treinado, mau escalado e sem nenhuma compreensão de futebol como esporte coletivo, e pior sem representar uma expressão importante da formação cultural do povo brasileiro. Mas, me esforcei para superar a minha radicalidade e racionalidade naquele momento e até arrisquei vibrar com alguns gols da seleção.
Vocês não sabem como foi difícil ver um jogador com talento para ser um ponta, um bom atacante até, usando a camisa 10 da seleção, que já foi de Pelé, Rivelino, Zico, e sendo utilizado como jogador de criação pelo meio, sem nenhum cacoête para exercer aquela função no jogo. Para alguém como eu que realmente conheço o esporte, é uma tortura psicológica muito grande.
Mais nestas minhas novas leituras sobre cultura popular e suas importantes implicações para a luta revolucionária, tenho aberto concessões e voltado a discuti futebol, confesso que hoje a tarefa de discutir futebol é muito mais complexa do que era nos anos 80 e 90 do século passado. Estas novas gerações desconhecem, muito forte, o esporte e as referências que têm são bem abaixo da média. Aí o MESSI se tornou a maior referência de futebol para essa turma. Eu também acho que este atleta é o melhor do mundo dos últimos 20 anos ao menos, mais conheci em ordem cronológica Juninho Pernambucano, Edmundo, Romário, Roger Milla, Rivelino, Reinaldo, Zico, Roberto Dinamite, Falcão, Sócrates, Michel Platini, Lothar Mathäus, Maradona, e mais uma infinidades de grandes jogadores e não dá para medir o futebol com a mesma régua destas gerações de um pouco mais de 30 anos.
Entretanto, hoje compreendo a necessidade de se fazer este debate em todos os espaços sabendo que o futebol é uma das maiores expressões da cultura popular brasileira. Dificilmente nos depararemos como uma pessoa que realmente não goste de futebol no país, certamente temos um pequeno grupo, mais a maioria da população curti assistir a uma partida de futebol.
Neste sentido é preciso ressignificar o esporte e colocá-lo na condição de cultura popular.
Nós últimos 30 anos o futebol mundial passou por transformações políticas muito grande. Primeiro o fato de ter se tornado uma máquina de fazer dinheiro. O esporte perdeu sua ludicidade e foi transformado em um produto extremamente lucrativo para um grupo específico e pequeno de pessoas, que investem muito dinheiro no futebol e extraem lucros estratoféricos do esporte.
Em segundo lugar a Europa, exatamente por ter investidores que aportam grandes somas no futebol, promoveu uma recolonização do restante do mundo via futebol. O padrão adotado pelos europeus para a prática do esporte se tornou o padrão adotado pelo mundo, inclusive pelo Brasil,Argentina e Uruguai, que durante muito tempo foram espelhos, escolas, para o futebol mundial.
Em terceiro lugar é preciso devolver ao futebol o seu caráter lúdico, não dar para continuarmos tratando o esporte de forma profissional de mais, e meramente comercial como acontece agora, pois, este processo tem tirado o brilho, a essência do esporte, profissionalizando até mesmo a forma de torcer para os clubes do coração, criando verdadeiras associações de torcedores que em muitos casos se confundem com guangues e até milícias armadas dispostas a qualquer coisa para ver seu clube vencedor. O torcedor comum, os clãs de torcedores, estão gradualmente perdendo espaços para estas "torcidas organizadas". Tem até algumas que deram respostas positivas na luta contra o fascismo nestes últimos anos no país, mais na maioria são violentas e tratam de forma perigosa a relação de paixão pelo clube que torce.
E por fim, mas, com a mesma importância, o menino "craque", que aprende a jogar futebol no meio das ruas, nos campinhos de várzea, nos "babas ou peladas" de final de semana ou depois das aulas, estão desaparecendo e sem espaços para progredir na carreira, hoje os jogadores surgem nas "escolinhas" de futebol que são pequenas e médias empresas com o objetivo de lucro.
Tudo isto nos lava a crer que é preciso se discuti futebol também nos espaços acadêmicos, no meio da intelectualidade de esquerda e ressignificar o esporte, dar a este esporte e a outros que também passaram por este processo de profissionalização e mercantilizacão neoliberal ou ultraliberal que tem dominado as relações do futebol na atualidade, a possibilidade de se tornar um meio factível para que todos tenham os mesmos direitos sejam ricos, de classe media ou pobres e as mesmas oportunidades de fazerem carreira profissional.
Estas relações comerciais e agora tocadas pelo capitalismo especulativo financeiro, que na maioria das vezes são nocivas ao esporte, mesmo quando dá certo, como é o caso da SAF BOTAFOGO, que até este momento tem sido sucesso, mais perdeu a essência, a condição de Clube de Futebol, precisam serem humanizadas.
Será ótimo para o torcedor se o SAF Botafogo Futebol de Regatas sagrace campeão brasileiro neste ano, mas, certamente não será como o título de 1995, onde o time foi campeão brasileiro com jogadores contratados com muitas dificuldades, sem nenhuma credibilidade, deram a volta por cima, e que depois em sua maioria se tornaram apaixonados pelo clube. Agora já terminaremos o campeonato, independente do resultado com grande parte dos atletas, estes já vitoriosos, a caminho de outras empresas espalhadas pelo mundo.
É para resgatar esta paixão, o amor pelo clube do coração, a alegria do torcedor de ver seus ídolos por duas, três, temporadas em seu clube que precisamos ressignificar o futebol. É para que novos Guarrinchas, Pelés, Didis, Jairzinhos, Helonos de Freitas, Túlios Maravilhas, possam surgir a partir da "pelada, dos babinhas" das ruas, que temos que discutir e ressignificar o futebol.
É para que tenhamos de volta o jeito brasileiro de se jogar futebol, com nossa ginga, com nossos dribles, com nossa alegria e felicidade de brincar com a bola no pé, que precisamos voltar a discutir e falar de futebol como uma das maiores expressões da cultura popular brasileira. Para que em um futuro próximo, não tenhamos tantos jovens usando camisas de "clubes empresas europeus", desfilando pelas ruas de nossas cidades.