quinta-feira, 13 de abril de 2023

O NOVO GOVERNO DO PT E O CENÁRIO POLÍTICO NO BRASIL ATUAL

POR PROFESSOR JOÃO PAULO

Chegando aos cem dias do terceiro governo do presidente Lula e aos cem dias do seu terceiro mandato, e do quinto governo do PT no Brasil, lembrando que a presidente Dilma Rousseff só governou dois anos na reeleição, já que ela foi golpeada e não conseguiu concluir o segundo mandato. Desta vez o desafio é tão grande quanto o da presidente Dilma que só teve a possibilidade de governar com efetividade nos dois primeiros anos da primeira gestão, de 2010 à 2012. 

A partir de 2013 teve início um longo processo de Lawfare (guerra jurídica), que impediu a plena governabilidade da primeira mulher eleita presidente neste país. Mas, é sempre bom lembrar que mesmo sofrendo ataques constantes da oposição no Legislativo e sem contar com o apoio do poder Judiciário, que também estava à serviço do golpe perpetrado pela burguesia brasileira e pelo sistema financeiro internacional, o primeiro governo da presidente Dilma chegou em 2014 com pleno emprego no país e com o país fora do mapa da fome. 

Mas, voltando ao governo atual do presidente Lula, não vai ser uma tarefa das mais tranquilas governar nestes próximos quatro anos. Este governo é o resultado de uma frente política muito ampla, onde há setores de esquerda, centro-esquerda, centro-direita e da direita liberal burguesa, membros de partidos que na verdade são apenas siglas de aluguel, usados para eleger figuras pernósticas e oportunistas de toda espécie, que usam a política como meio para acumular dinheiro.

Na outra ponta nós ainda teremos que enfrentar a irracional disputa com a esquerda radical que teima em cumprir o papel, imposto pela burguesia, de fazer oposição por dentro do movimento social e popular, ao PT e à outros partidos de esquerda que disputam espaços com a burguesia na "sociedade politica" e ao mesmo tempo com uma militância que mesmo estando no PT e em outros partidos políticos de esquerda, são determinados e dominados pela ideologia burguesa. Estas figuras estão em todos os partidos de esquerda, atuam em processos eleitorais ativamente, alguns até se elegem a cargos públicos, mas, não conseguem de forma alguma romper com o imaginário coletivo burguês, (cultura burguesa). 
Estas figuras são ao mesmo tempo culpados e vítimas do processo histórico e do processo político a que fomos submetidos pela burguesia desde que esta classe social tornou-se dominante na Europa Ocidental, ainda na metade da Baixa Idade Média, e desde então passou a ditar os rumos para toda a humanidade.

O modo de produção capitalista vive de crises cíclicas, não houve nenhum momento da história deste modo de produção, em que ele não tenha passado por períodos de instabilidade política e econômica, para logo depois, mergulhar em uma profunda crise econômica, política e social. A única coisa que sempre se mantém estável neste modo de produção desde sua inauguração com o Renascimento Cultural, é a produção de uma cultural capitalista sobre o conjunto da sociedade.

Desde o aparecimento da burguesia como classe social, ela tem construído o mundo ideal para que seus princípios se estabeleçam como dominantes e determinantes na sociedade. As muitas revoluções promovidas por esta classe social desde que se tornou economicamente dominante teve como principal objetivo estabelecer o controle do pensamento social coletivo. O Renascimento Cultural, os ideais do Mercantilismo, a Reforma Protestante, o Iluminismo, o Liberalismo Político, Econômico e o Positivismo, formaram o conjunto de pensamentos, de ideias que serviram como base teórica para a prática comercial da burguesia que se formava como classe social desde a Baixa Idade Média.
 
Desde então a burguesia vem construindo o mundo ideal para que sua prática econômica, política e social, torne-se o único modelo de sociedade, o único meio de vida possível aos olhos da população mundial. O intelectual e militante italiano Antônio Gramsci, em minha opinião foi quem melhor compreendeu a perspectiva da hegemonia burguesa, ampliando a compreensão já desenvolvida por Marx e Engels no século XIX.

Olhando o capitalismo a partir das relações econômicas entre capital x trabalho, aparentemente a dominação da classe trabalhadora pela burguesia reside nas relações econômicas e políticas, mas, se fizermos uma análise mais detalhada de como funciona a hegemonia burguesa no modo de produção capitalista, veremos certamente que ela é muito mais complexa do que apenas o domínio econômico e político da sociedade. E estas primeiras duas décadas do século XXI têm sido um laboratório fantástico para esta pesquisa e compreensão do fenômeno da hegemonia do capital sobre o trabalho.

Se imaginarmos que o capitalismo está em crise econômica, política e social, desde o 1999 e não conseguiu resolver esta crise até o ano corrente e mesmo assim continua mantendo a hegemonia cultural em todo o mundo, e mais, aprofundando o controle do imaginário coletivo da humanidade, mesmo diante da crise estrutural do modo de produção, certamente liga um sinal de alerta para quem acredita que se derrotamos o capital política e economicamente instauraremos um novo paradigma civilizatório, o socialismo.

Neste momento da história me parece muito improvável que isto aconteça somente derrotando a burguesia na perspectiva econômica e política. Se lembrarmos que os primeiros anos de governos do PT no Brasil, mesmo sem ter feito nenhuma "revolução" no sentido Leninista, ou Maoista, melhorou consideravelmente a vida de quase oitenta milhões de brasileiros e brasileiras, promoveu o maior processo de distribuição de renda já visto na história deste país, e há cinco meses tivemos uma eleição que para este partido vencer o pleito contra o pior presidente que a história do Brasil já registrou, precisou formar um leque de alianças que incluiu representantes claros da burguesia brasileira, é porque há algo maior que a economia e a política, que garante a hegemonia burguesa, caso contrário, era só o povo recordar o antes e o depois de 2016, que o PT venceria fácil a eleição com qualquer nome que estivesse concorrendo contra o representante do nazifascismo no Brasil, que fracassou retumbantemente em sua gestão a frente do Estado Brasileiro.

Mas, o capitalismo é muito mais complexo do que se podia imaginar no século XIX e durante grande parte do século XX, o capitalismo atua de forma holístico, contaminando com sua ideologia todos os espaços da vida social, e desta forma desenvolveu uma cultura capitalista que impregna o tecido social a tal ponto que mesmo quem combate o capitalismo torna-se um aparelho reprodutor da cultura capitalista.

Se observarmos de perto o movimento social brasileiro, em que momento ele se colocou numa posição contrária ao modo de produção capitalista? Nossas lutas sempre foram contra as consequências geradas pelo capitalismo, mas, nunca contra a estrutura capitalista. Lutamos contra empresa colonial portuguesa nos primórdios do capitalismo/mercantilismo, mas, nunca combatemos a invasão de nosso território pelo branco europeu. Combatemos a escravização dos povos africanos trazidos compulsoriamente para o trabalho, mas, nunca questionamos o porque da escravização. Travamos várias lutas durante o ciclo minerador no Brasil e o enrijecimento da exploração do nosso país por Portugal, mas, todos os movimentos foram pontuais e individualizadas.

Chegou o Império e tivemos movimentos sociais contra a forma perversa em que o império tratava as populações vulnerabilizada pelo regime, estas lutas  também foram pontuais e individualizadas. Veio o golpe, mais um, já que a chegada do império também foi fruto de golpe, se manteve no país a mesma estrutura desigual, desumana, autocrática e autoritária dos períodos anteriores, entra em cena a República Federariva Brasileira e tivemos vários movimentos de resistências à desumanização e perversidade do capitalismo de subserviência instaurado no Brasil pela burguesia incipiente e sabuja deste país, mas, todos estes movimentos foram resultantes das necessidades objetivas de sobrevivência de setores da população explorada, nenhum de forma organizada e pautado em um projeto de nação contrario ao instaurado pela burguesia da primeira metade do século XX.

Mesmo o Partido Comunista Brasileiro, que surge em 1922, acreditava na tese de que primeiro era preciso avançar o capitalismo brasileiro para depois fazer a luta pelo socialismo. A partir da segunda metade do século XX é que começamos a pensar em outro modelo de sociadade para além do que foi pensado pela burguesia brasileira. Mesmo da década de 1950 até a década de 1980, não tínhamos um projeto de nação pautado pela classe trabalhadora, o que tínhamos eram inúmeras organizações políticas e sociais pautadas por ideologias de caráter internacionalistas que lutavam contra a burguesia e sua ditadura civil militar, mas, individualizadamente.

Ligas Camponesas, Sindicatos Rurais Católicos, Ação Católica, Ação Popular, PC do B, PCB, POLOPE, PCR, MR8, ALN, PSB, e outras tantas denominações, presas a ideologias importadas da URSS, da China, de Cuba, ou de algum pensador do século XIX ou do início do século XX, cada uma dentro do seu quadrado, e isoladamente eram facilmente desconstruídas no imaginário coletivo da classe trabalhadora pelos aparelhos ideológicos da burguesia nacionalista ou internacionalista.

Somente no ano de 1980 surgiu a primeira frente plurepartidaria da classe trabalhadora no país, o Partido dos Trabalhadores, que mais que um partido político era uma frente, uma federação de vários setores da classe trabalhadora que fazia o enfrentamento ao capitalismo e a burguesia brasileira. Esta ao menos era a ideia primordial dos setores que idealizaram o PT. Mas, como não podia deixar de ser, a burguesia brasileira percebeu muito rapidamente o jogo e passou a utilizar seus aparelhos reprodutores da ideologia burguesa contra a organização de classe que era o Partido dos Trabalhadores.

O primeiro momento foi o de colar na imagem do PT as máculas morais que permeavam o ambiente cultural brasileiro, conceitualmente imposto pelos padrões sociais da burguesia. Inicialmente o PT era o partido dos hippes cabeludos, sujos, piolhentos e maconheiros. No segundo plano, tratou de somar a todos os rótulos apontados acima, a ideia política do anticomunismo, aí os militantes do PT se tornaram todos iguais, "todos comunistas e comedores de criancinhas". E no terceiro momento a burguesia utilizou do seu aparato ideológico para dividir a frente política de esquerda que nasceu no país, criando cisões ideológicos no partido, e a pluralidade de ideias que era a maior trunfo deste partido passou a ser vista por muitos como um ponto negativo, quantas reportagens foram feitas pelo JN, falando sobre as divergências internas do PT, durante o governo de Luiza Erondina em São Paulo, mais uma vez a burguesia trabalhando para criar cisões por dentro do movimento popular, estimulando ideologicamente as cisões dentro do maior partido de esquerda do continente Americano. A velha tática de dividir para conquistar, e a militância de esquerda como sempre caindo como patinhos no jogo da burguesia.

Este quadro se mantém até os dias atuais, o Partido dos Trabalhadores continua sendo a grande força política da classe trabalhadora até este momento, amanhã pode deixar de ser. Outros partidos de esquerda sobrevivem na sombra do PT e setores mais a esquerda estão organizados em partidos nanicos sem expressão política, fazendo política em uma bolhinha, falando para si mesmo o tempo todo, enquanto a direita se reorienta e reorganiza no país, usando a comunicação de massa através da grande mídia corporativa e os bilhões movimentados pelo mercado, e a extrema-direita (nazifascismo) ganha corpo e fôlego através do uso sistematizado pela equipe do Steve Bannon, o papa do neofascismo, das redes sociais, que tem sido a grande arma do extremismo de direita em todo mundo.

Complementando este cenário, este início de novo século nos trás uma novidade, uma militância de esquerda que não ler, preguiçosa, que se fundamenta a partir do senso comum burguês  e o reformula para adequá-lo à sua atuação de esquerda. Se adapta aos modismos culturais produzidos pela burguesia acriticamente, sem fazer nenhuma leitura histórico-sociológica, sem fazer análise de conjuntura, sobre nenhuma questão do seu tempo, conduzido pelo "oba oba" da sociedade estão sempre pronto para fazer as campanhas eleitorais, mas, em seu cotidiano não se diferem em nenhum aspecto do "analfabeto politico" de Bertolt Brechet, alguns até tentam justificar sua falta de leitura da realidade e de conhecimento utilizando de um senso comum criado pela cultura burguesa para os setores de esquerda. Grande parte da militância de esquerda deste início de século XXI está enquadrado neste grupo, uma presa fácil para uma práxis "stalinistas", ou mesmo para neofascismo.

É neste cenário que vai se dar o terceiro mandato do presidente Lula e o quinto mandato do PT a frente do Estado Brasileiro, um cenário muito desfavorável que certamente irá exigir muita pedagogia política dos que estão à frente do governo neste momento.100 dias após assumir novamente o governo do Brasil, o cenário fica visível, temos a mídia burguesa fazendo uma campanha incessante para pautar o governo à partir dos interesses do mercado rentista que nada produz, sobretudo, nesta queda de braços com o Banco Central "independente", claramente a posição da mídia corporativa burguesa é contrária ao governo Lula. Temos inimigos dentro do governo, que vieram na perspectiva de formar uma base sólida no poder Legislativo onde claramente a burguesia tem o controle político e econômico do tabuleiro de xadrez da política nacional. E aonde deveríamos está organizados e mobilizados para as batalhas que nós, classe trabalhadora, o governo Lula e do PT iremos travar nos próximos quatro anos, continuamos desorganizados, desmobilizados, divididos e sem conseguir nos comunicar com o povo com a massa que forma a classe trabalhadora do país.

Não me parece o cenário ideal! Mas, podemos mudar a correlação de forças se nós, militância de esquerda, abandonarmos nossas vaidades pessoais e entendermos que o sucesso do governo Lula em favor povo brasileiro, de quem mais precisa da presença do Estado, depende de nossa ação política nos próximos quatro anos, ou três anos e duzentos e sessenta e cinco dias. Precisamos unificar nossas bandeiras de lutas entorno do governo Lula, precisamos desenvolver em caráter de urgência, uma pedagogia política que dialogue com a classe trabalhadora, com a população mais pobre do país, precisamos ampliar nossa inserção nas redes sociais, fortalecer os canais que já temos e produzir novos canais de diálogo com o povo via redes sociais. Espalhar nossa mensagem de amor ao nosso país e de cuidado com o outro, superando a mensagem de ódio que a extrema-direita tem espalhado nas redes. Este é nosso papel revolucionário neste momento, voltar a dialogar com a classe trabalhadora e fortalecer o governo Lula, se fizermos isto estaremos dando um grande passo rumo à nossa utopia socialista. Precisamos entender isto e começar já a mudar nossa ação politica, nós dispir desta capa pequeno burguesa que nos reveste, neste momento histórico, lembrando sempre que a burguesia está o tempo todo no frente e neste momento tem o domínio total de sua principal arma de luta que é uma sociedade dominada por sua cultura capitalista.

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