quarta-feira, 21 de junho de 2023

A CULTURA DO ÓDIO CEIFANDO VIDAS NO BRASIL

Professor Gabriel Azevedo Costa Lima(*)

Viemos de uma história de povo em que se naturalizou numa mão um terço, na outra o chicote. De um lado senhoras, senhorinhas, matronas, com golas altas, espartilhos de controle de seus corpos e vontades, de outro lado, a permissividade masculina em ter quantas mulheres quisesse e se deitar  com suas escravas, as quais não teriam sequer escolha. 

Os mestiços, nascidos daí, pertencentes a essa "zona cinza", a depender do acento de seu matiz na pele, ocupariam essa ou aquela função entre a senzala e a casa grande, mas, não sendo de nenhuma delas. Uma posição de opressão traidora de uns e de fascínio, emudecido, frustrado, com os afagos do pai branco nunca realizado, sem acesso aos lençóis limpos e bem passados da casa grande. Esse quadro de imagens fortes, desenhadas pela obra de Gilberto Freire, trata, ainda, em muito, da estrutura simbólica das relações de poder no nosso país.

Um povo que, embora em muito resista e também supera, uma parte, foi socializado para trair os desafortunados e perseguir, babar, os valores da elite bem nascida, "sortuda", opressora. Dai nossa síndrome de vira-lata...

Quantas vezes ouvi, "Frequento tal Centro, só tem doutor, gente fina..."

Bom nada contra os doutores, ainda mais os de ciências, precisamos deles e de sua multiplicação para democratizar seus serviços, isso é louvável. Mas falo de perversão, de sibmissão de classe, de complexo de inferioridade barra pesada. Tão barra pesada que não é incomun a vítima adotar toda visão de mundo da "casta superior" sem sequer ser vista por esta de modo minimamente humano.

O Brasil pós 2018 catalizou, aglutinou esse contraste de modo gritante e inegável. As perversões são o resultado. Até o lado feio, perverso, do opressor de elite instituído é adotado nesse pacote social macabro. Haja vista, a importação da cultura de massacres nas escolas, que não nos pertencia, era sim um sintoma grave de deterioração de uma cultura capitalista/meritocrática nos Estados Unidos, tão cobiçados... Uma cultura do individualismo da unha grande, que vai numa peneira finíssima estabelecer os heróis e descartar os fracassados. Aí... tem hora que o fracassado, cheio de dor, com a mente turvada e sentimentos emaranhados, quer mostrar aos "vencedores", em sua concepção, quem é que manda.

Enquanto não implodirmos essa cultura perversa de vencedores e fracassados, leia-se opressores e oprimidos, só estaremos então a enxugar gelo...


 (*) Professor Gabriel Azevedo Costa Lima é membro do MCOESO e atua na Rede Estaudal de Educação em Vitoria da Conquista - BA.

Nenhum comentário: