segunda-feira, 22 de agosto de 2022

QUANDO A FÉ SE TRANSFORMA EM UMA DOENÇA SOCIAL 

POR PROFESSOR JOÃO PAULO

Estou voltando à escrita de um texto sobre o papel das religiões no processo político em nosso país nas eleições desde a de 2014 até esta de 2022. É inegável que temas de cunho religioso firam incessantemente pautados em todos os processos eleitorais desde o início do processo de radicalização do golpe jurídico, parlamentar, midiático contra o povo brasileiro. 

Este processo não é uma exclusividade do Brasil. Na realidade o crescimento de pautas de caráter religiosos se tornou constante em várias regiões do planeta, especialmente em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. 

Se olharmos de perto este fenômeno, veremos que as pautas de cunho religiosos em sua maioria estão ligadas à defesa da família tradicional capitalista, do patriotismo exacerbado, dos valores morais da sociedade burguesa, de soberania racial caucasiana e de um Cristianismo fundamentalista, belicoso e autoritário sobre a sociedade. Uma descrição perfeita do que logo ali, no início do século XX ficou conhecido como fascismo e nazismo e foram responsáveis pela segunda guerra mundial. 

Só para contextualizar historicamente, o nazifascismo surge na Europa Ocidental, exatamente durante uma profunda crise do capitalismo, em dois países que foram derrotados na primeira guerra mundial e suas ideias chegaram muito rapidamente às camadas mais vulneráveis da sociedade. 

Agora ele retorna ao cenário político mundial, exatamente nas primeiras décadas do século XXI, em meio a uma profunda crise estrutural do modo de produção capitalista que está em curso desde 1999 e ainda sem solução. 

Assim como no início do século XX, o nazifascismo não é um acontecimento histórico factual, é um projeto de manutenção do poder da classe dirigente do sistema capitalista, a burguesia, sobre o planeta, sobre a classe que vive do trabalho. Também como no início do século passado, o grande investidor nesta cultura de morte sobre o mundo é os Estados Unidos da América.  

Aí alguns desavisados podem perguntar, o que os norte-americanos ganham em estimular o fascismo pelo mundo novamente. Assim como no século XX, espalhar o caos para depois agir como polícia do mundo, vai dar aos EUA a condição de país politicamente e economicamente dominante no novamente no mundo, condição que neste momento da história a maior economia global está perdendo em função do crescimento de economias como a China, do poder bélico da Rússia e do fortalecimento de forças políticas antagônicas à hegemonia norte-americana sobre a América Latina. 

A diferença deste momento para o início do século XX é que os norte-americanos, passaram a usar outras armas, senão, o seu poderio bélico, para conquistar, ou reconquistar, ou manter, sua hegemonia mundial. 

Desde a década de 1950 do século passado a classe dirigente norte-americana já vislumbrava a religiosidade popular como ferramenta para a alienação da classe que vive do trabalho tanto internamente, ou seja, dentro de suas próprias fronteiras, mas, também para fora, sobretudo, em países de terceiro mundo, como eram tratados os países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, alinhados ao capitalismo ocidental no pós segunda guerra mundial. 

A aposta no fundamentalismo religioso de extrema-direita foi posta em prática com maior intensidade a partir dos anos 60 do século XX, quando os pastores pentecostais norte-americanos começaram a serem enviados para a América do Sul e países do continente Africano com a missão clara de apresentar um deus do Cristianismo que se confundisse com o padrão cultural estadunidense e vendesse para as populações pobres destes países a cultura imperialista dos Estados Unidos. Um deus "justo" capaz de por conta de sua justiça, punir a quem não seguir seus preceitos religiosos, uma visão bem medieval de Deus. Um deus que cobra do fiel através da obrigatoriedade do pagamento do "dízimo" para lhe conceder uma graça divina. 

Um deus que impõem aos seus seguidores a aceitação de sua condição de pobreza aqui nesta vida, pois, lhe promete salvação na vida após a morte. 

Um deus que lhe impõem a não participação na história, na sociedade, nas lutas e dores deste mundo, pois, este mundo real é só uma passagem para o mundo ideal após a morte. 

Um deus que permite que apenas os pastores das muitas igrejas ganhem dinheiro, por serem os escolhidos por deus para guiar as ovelhas perdidas para o mundo ideal. 

Mas, o pior é que este modelo de fé ultrapassou as barreiras do protestantismo puritano norte-americano e passou a ser professado por setores do catolicismo conservador, setores do espiritismo, setores das religiões de matriz africana e todos os segmentos religiosos no Brasil e no mundo. 

É desta forma, utilizando da fé das pessoas socialmente vulneráveis que o padrão religioso fundamentalista e fascistoide norte-americano se espalhou pelo planeta e ganhou seguidores em todo o mundo.

Não é mera coincidência o fato de onde existe pobreza há uma grande quantidade de igrejas pentecostais e neopentecostais aqui no Brasil. Estes segmentos fazem parte de um projeto de poder da burguesia financeira internacional, elas se converteram numa importante ferramenta de alienação e ignorantização dos mais pobres de nossa sociedade. 

Estes segmentos criam uma grande rede de "solidariedade" conservadora, a ideia desta rede não é a emancipação do "ser", mas, sim de conservação do "ser" em seu estágio de subserviência a ordem dominante. Prometem uma nova vida no paraíso, enquanto aqui estas pessoas se conformam, tornam-se cordatas com sua condição de empobrecimento e opressão. Situação confortável para os donos do poder. Estes segmentos religiosos funcionam como uma confraria, onde buscam todos os meios para fidelizar os fiéis e ampliar o alcance de seus domínios, inclusive a chantagem, ameaçando com o "fogo do inferno" aqueles que não obedecerem a risca as determinações dos pastores, só para completar isso serve para outros segmentos religiosos de caráter fundamentalista, logo, fascistas.

Esta é a realidade religiosa e política deste momento histórico. A religiosidade popular dos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento e até de países desenvolvidos como os Estados Unidos ou Inglaterra sendo usada para alienar e idiotizar a maior quantidade de pessoas possíveis. Se olharmos de perto, em cada bairro das cidades onde a população é mais vulnerabilizada, os templos pentecostais e neopentecostais se multiplicam como gafanhotos, abocanhando todos e tudo que conseguirem tragar. 

Este é parte do projeto de poder da burguesia financeira internacional comandada pela burguesia norte-americana, para este início de século XXI. Há um projeto claro, de disseminar este tipo de religiosidade fundamentalista, de um Cristianismo sem lastro, raso, distante, muito distante mesmo, da essência das primeiras comunidades Cristãs, distantes da essência de Jesus Cristo, paradoxal aos ensinamentos do Cristianismo e alicerce para a expansão do neofascismo sobre o mundo. 

E o pior é que tem surtido efeito e temos uma sociedade totalmente influenciada por uma cultura de morte, violenta, preconceituosa, sofrendo de uma patologia social extremamente perigosa e nociva à sociedade do "bem viver".

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