domingo, 15 de janeiro de 2023

IDEOLOGIA E O CONTROLE SOCIAL PELA BURGUESIA

PROFESSOR JOÃO PAULO

A ideologia é um conjunto de ideias que determina o modelo de sociedade a que estamos submetidos e também as condições que cada individuo se coloca nas relações humanas vividas em sociedade. Sim, está claro que é uma definição rápida e próxima do senso comum, mas, em linhas gerais podemos definir a ideologia desta forma para facilitar o entendimento de quem teve pouco contato com a literatura das ciências humanas.


A ideologia pode ser ao mesmo tempo um substantivo abstrato, mas, que se torna concreto no mento em que interagi objetivamente com as ciências humanas, todas elas sem distinção, pois, este elemento social que está presente em todas as ciências das humanidades ganha formas no momento em que passa a ser fundamental para manutenção ou queda de um sistema econômico, político, social e cultural.  

Quando pensamos na condição social do ser a partir da ideologia que determina sua vida, costumamos definir se o indivíduo está alienado ideologicamente de sua condição social ou não a depender das posições políticas que assume diante da sua realidade objetiva, e aí a ideologia deixa de ser abstrata, estando apenas no campo das ideias, para se tornar um elemento de dominação ou de libertação do ser.

Em uma sociedade não existe apenas uma ideologia interferindo diretamente nas vidas dos indivíduos sociais, pois, desde que surgiu no horizonte da história a propriedade privada dos meios de produção, que a humanidade foi dividida por classes sociais, os proprietários destes meios de produção (ricos) e os que não possuem os meios de produção e são obrigados a trabalhar para os proprietários para sobreviver (pobres). E aí evidentemente, que as ideias ou ideologia que servem para os ricos não pode ser igual às ideias ou ideologia que serve para os pobres, por uma questão objetiva e material.

Desta forma, é comum dizer que o trabalhador, o assalariado, e aí, independe do valor do salário que este trabalhador recebe pelo serviço prestado, que se posiciona ao lado da burguesia no processo político é um alienado de sua condição social. Por outro lado, o trabalhador que se posiciona no campo oposto ao da burguesia costumeiramente é dito sobre ele que é consciente de sua função social enquanto agente social e político.

No modo de produção capitalista, temos duas ideologias que disputam a hegemonia política, social e cultural, a ideologia burguesa, e a ideologia da classe que vive do trabalho, ou ideologia da classe trabalhadora, como é mais comum ser chamada pelos cientistas sociais. Após sete séculos do surgimento dos primeiros sinais do capitalismo, a hegemonia econômica da burguesia, classe dirigente do modo de produção capitalista também determina que a ideologia burguesa seja hegemônica neste bloco histórico. Todo o planeta vive sob as determinações da ideologia burguesa. Logo a classe trabalhadora ou classe que vive do trabalho, foi hegemonizada pela ideologia burguesa.

Historicamente todo o trabalhador deveria ser determinado pela ideologia da classe que vive do trabalho, todos nós trabalhadores deveríamos nos posicionar contra a burguesia, já que esta vive da exploração da mão de obra de quem só tem sua força de trabalho para vender. Neste sentido, a ideologia burguesa é uma ideologia opressora e através de um vasto aparato de difusão desta ideologia e imposição desta ideologia a toda a sociedade é natural afirmar que a maior parte da classe trabalhadora está alienada de sua condição de classe social.

É incrível como a ideologia burguesa, a ideologia dominante neste bloco histórico tem atuado decisivamente no processo de dominação da classe que vive do trabalho, conseguindo determinar ações até da intelectualidade orgânica da classe que vive do trabalho em todo o mundo. Neste sentido, o indivíduo consegue fazer as leituras políticas numa perspectiva sócio-econômica coerente com suas condições históricas objetivas, mas, não consegue manter esta mesma coerência quando a questão é o domínio cultural da ideologia burguesa sobre a sociedade.

Nesta perspectiva surge uma série de ideologias endereçadas para cada estrato social, o militante e intelectual italiano Antônio Gramsci, foi o teórico que melhor compreendeu este processo de construção ideológica burguesa, em minha opinião. A burguesia entendeu a partir da segunda metade do século XX que não precisava combater a classe que vive do trabalho, seria muito mais fácil dividir e conquistar. 

A execução desta tarefa não era difícil, era só radicalizar o liberalismo e dizer para a população que a "democracia" impõe a todos os homens o direito às liberdades individuais. E desde então a burguesia em todo o mundo de economia capitalista desenvolvida, América do Norte, Europa Ocidental e Japão e Coréia do Sul na Ásia, as liberdades individuais foram postas em pauta, como principio estruturante da democracia burguesa. 

E é claro que a burguesia já sabia que este discurso seria adequado pelos setores de esquerda para uma perspectiva de luta de classes, e tratou de desenvolver o antídoto para impedir que a classe que vive do trabalho deixasse de entender estas lutas numa perspectiva de luta de classes, transformando a centralidade do debate em lutas identitárias ou setoriais.

Vários movimentos foram criados pelos setores vulnerabilizados pelo capitalismo desde o surgimento da "juventude transviada" na década de 1950. Movimento feminista, movimento pela liberdade de identidade de gênero, movimento negro, movimentos de juventude. Dentro de cada movimento deste, a divisões em várias correntes de pensamento, fragmentações de fragmentos da luta pela superação do capitalismo, e dentro destas fragmentações do fragmento há também fragmentos, enfim, a luta foi se individualizando mais e mais e acabamos todos fazendo lutas individuais, que só fortalecem a ideologia burguesa como sendo dominante neste início do século XXI. 

Mesmo os partidos de esquerdas foram tragados para esta lógica e aí em vez de partidos fortes, bem estruturados em organizações globalizadas como pensou Marx e outras lideranças do século XIX e início do século XX, temos uma porrada de partidos pequenos, divididos por ideologias de esquerda, não pela ideologia burguesa, mas, também influenciadas por ela, que por discordâncias pontuais sobre o método para chegar ao socialismo e por muitas vaidades pessoais não conseguem unificar a luta. Fica evidente que os intelectuais orgânicos que estão nas estruturas partidárias também estão sendo determinados pela ideologia burguesa, a ideologia dirigente do modo de produção capitalista. 

A ideologia dirigente mostra o quanto é competente em seu papel de dominar o mundo no momento em que consegue usar até mesmo o Cristianismo Católico, historicamente um antagonista do capital pela sua própria doutrina de Fé, já que os princípios do Cristianismo em sua essência defendia a humildade, a solidariedade fraterna e a coletividade social (ATOS DOS APÓSTOLOS), foi tragado pelas ideias do capitalismo, defendendo a propriedade privada dos meios de produção, defendendo meritocracia, a competição entre os homens. Mesmo no Concílio de Trento, onde o catolicismo se adéqua ao novo mundo burguês que estava em construção na Europa Ocidental, a Igreja manteve os questionamentos ao lucro e a usura. Só para fazer esta ressalva, trato especificamente do Catolicismo, pois, é a religião de matriz Cristã que mais se aproxima do Cristianismo Primitivo.

A ideologia está em todos os lugares, em todos os espaços onde há o pensamento, e a ideologia burguesa dominante, determina todas as ações humanas sobre o planeta desde que o Mercantilismo surgiu no final da Baixa Idade Média. A burguesia ao longo destes seiscentos ou setecentos anos de história, tem tido a capacidade de compreender as mudanças históricas e de se adaptarem a estas mudanças, muitas vezes estas mudanças são orquestradas pela própria burguesia dominante que parece entender o mundo muito além e mais rápido do que os intelectuais orgânicos da classe que vive do trabalho entendem, e aí está sempre um passo a frente, impondo sua visão de mundo a esta intelectualidade, movimentando com perícia as peças do xadrez no tabuleiro da história e conduzindo o jogo para onde compreendem que seja a melhor jogada. 

A ideologia burguesa atua em todo o tecido social no planeta, seja na política, na economia, na sociedade civil, na cultura, nos esportes, na música, na educação, na saúde, nas religiões, na família, onde existem relações humanas e sociais, ali tem o toque da ideologia dominante. Nada está isento do pensamento burguês, nada foge ao controle da cultura burguesa.

Periodicamente nos deparamos com situações exemplares para demonstrar o quanto a ideologia da classe dominante está presente em cada um de nós, a todo o momento. Outro dia aproveitando o clima de copa do mundo e me valendo da velha máxima de que todo brasileiro é um impotencial treinador de futebol, resolvi em tom de brincadeira, convocar uma seleção brasileira só com atletas brasileiros, que disputaram o brasileirão do ano passado(2022). Montei a equipe principal tendo como base os dois principais times do país neste momento, Flamengo e Palmeiras. 

Não tenho acompanhado muito de perto o futebol, mas, assisti a algumas partidas do Fluminense, algumas do Flamengo e Palmeiras e claro assisti a três partidas do meu clube do coração o Botafogo. E montei o time tendo como base o que vi, nestes quatro times e em seus adversários, Internacional, São Paulo, Fortaleza e Atlético Mineiro, beleza, fui escalando os jogadores de acordo com o que vi nos jogos que assisti, e tive a ousadia de colocar o centroavante do Botafogo no time principal. Postei a seleção em alguns grupos de Whatsapp e causou um frisson a presença do desconhecido jogador do Botafogo no comando de ataque. 

Nos quatro grupos onde postei a convocação do meu time ouvir a mesma crítica. Ninguém reclamou dos nomes do Palmeiras e Flamengo onde jogam a maioria dos jogadores que convoquei, afinal, estes são os times da moda no país, mas, todos tinham uma crítica ao jogador do Botafogo, ninguém nunca ouviu falar em Tiquinho Soares, o Botafogo ainda não ganhou títulos e nem sei se vai ganhar em função da SAF.

Por que estou mostrando este fato aqui? Para mostrar como a ideologia funciona no inconsciente coletivo da sociedade. Por não ser um jogador divulgado e badalado pela grande mídia esportiva e por está jogando em um clube que só ficou entre décimo primeiro lugar no campeonato, o atleta no inconsciente coletivo já estava automaticamente descartado. Imagino que se eu tivesse colocado o nome de Firmino ou Hulk, certamente não teria havido uma reação tão negativa, pois, estes dois jogadores fracos, já estão ideologicamente sustentados pela mídia esportiva, e a população já foi ideologicamente determinada a crer que os jogadores mais badalados pela grande mídia, são logicamente os melhores.

A ideologia age de forma tão incisiva e determinante que não importa o nível de escolarização ou o grau de leitura que os indivíduos possuem da realidade, sempre há um desvio, um escorregão, que mostra que o poder da ideologia dominante de alguma forma afetou a formação política do ser em sociedade. Alguns, por adquirir um grau maior de compreensão da realidade objetiva, até consegue se colocar na condição de um ser em desconstrução dos efeitos nocivos da ideologia burguesa. Mas, a maioria absoluta da sociedade têm muita dificuldade de se libertar do domínio ideológico imposto à sociedade contemporânea. 

Diante deste quadro vem a pior das constatações. Tudo me faz crer que somente a burguesia tem a compreensão do poder que a ideologia exerce sobre a sociedade, só a burguesia sabe realmente a importância da ideologia na manutenção do “status quo” da classe dominante sobre a sociedade, e é exatamente em função disto, que a burguesia 1% da população mundial domina e determina os rumos que a sociedade capitalista, não permitindo nestes últimos seis séculos que a classe que vive do trabalho, tome consciência do seu papel histórico e promova à superação, a ruptura estrutural com o modo de produção capitalista, extremamente nocivo para 99% da população global e tão nefasto à vida no planeta.

E mesmo sendo a natureza do capitalismo extremamente desigual e desumana, mesmo o capitalismo ter vivido estes quase seis séculos sob de crises econômicas e políticas cíclicas, mesmo tendo o modo de produção capitalista promovido duas grandes guerras mundiais e várias outras guerras menores, por poder e dinheiro, mesmo tendo o capitalismo promovido a maior crise civilizacional da história, e ter produzido o maior processo de acumulação de riquezas nas mãos de um número a cada século menor de pessoas, mesmo sendo o capitalismo o maior responsável pela destruição dos nossos ecossistemas o que está levando o planeta para um futuro de caos, ainda temos grande parte, ou melhor, a maioria da classe que vive do trabalho alienada, dominada e determinada pela ideologia burguesa dominante.

Saindo agora do geral para o específico, e trazendo o debate para a realidade brasileira, o controle ideológico e cultural da maioria da população pela ideologia dominante no país, certamente é o grande gargalo para se promover uma mudança estrutural das relações econômicas, políticas, sociais que se desenvolvem tanto na “sociedade política”, quanto na sociedade civil deste imenso país da América do Sul.

O que mantém o Brasil em completo estado de atraso, até mesmo para um país liberal é a ideologia burguesa que determina a nossa classe dirigente. A burguesia brasileira, e consequentemente, a classe que vive do trabalho neste nosso país, que é dominada econômica, política e culturalmente pela burguesia, foram determinadas por um modelo de ideologia burguesa sabujo e subserviente.  

Nossa burguesia ainda é escravocrata, conservadora nos costumes, autoritária, racista e sabuja aos interesses do capital financeiro internacional. Esta condição mantém o Brasil numa subserviente aos interesses da burguesia internacional, não existe mais neste país um setor da burguesia nacionalista de verdade, algumas pessoas, contadas a dedo da burguesia que mantém uma posição nacionalista; e de forma organizada, os partidos de esquerda defendem a soberania nacional frente ao imperialismo do capitalismo financeiro globalizado.

No vácuo desta ideologia nacionalista entre a burguesia brasileira e em função do processo de destruição da esquerda brasileira para garantir o golpe contra o PT, a ideologia burguesa pariu a serpente do nazifascismo brasileiro. Diante deste quadro vimos emergir das trevas, dos esgotos fétidos da história recente, o lixo nazista que foi chamado de bolsonarismo. Claramente deu errado para todo o país, pois, criminalizou o PT e as esquerdas, mas, implodiu a direita dita liberal no país, trazendo para a cena política o que nossa história já registrou de mais nojento e perigoso, esta horda nazifascista, emburrecida, insana e violenta.

A ideologia burguesa é a criadora do nazifascismo e da "besta" feroz que foi posta na direção do Estado a partir do golpe que culminou em 2016 e 2018. Claro que quando a burguesia promoveu o golpe esperava que eles, os supostos liberais, assumissem a direção política do Estado Brasileiro perdido em 2002 com a eleição de Lula e depois com a eleição de Dilma Rousseff. Mas, isso não aconteceu, o PSDB que desde a década de 1990 do século passado representava a burguesia urbana de São Paulo, foi implodido junto com toda a direita "liberal".

Em 2018, a burguesia brasileira lançou quatro candidatos para tentar vencer o pleito eleitoral, prenderam Lula para tirá-lo da corrida eleitoral, mas, o PT se mostrou forte mesmo sem Lula e foi o partido que disputou contra o nazifascismo do miliciano carioca, enquanto a direita liberal se esfacelava. Em algum lugar no trem da história, a ideologia burguesa dominante, pegou um caminho diferente, e em vez de ser uma ferramenta para alienar a classe que vive do trabalho, criou uma horda insana e descontrolada, que viu no Jair Messias Bolsonaro, um ser perverso, mau caráter, corrupto e completamente imbecil, um espelho para este grupo social carregado de ódio e de toda forma de preconceitos sociais, raciais, de gênero, intolerância religiosa. E encontram um lugar para depositarem todas as frustrações impostas à população pelo modo de produção capitalista. 

Os seguidores desta "seita religiosa" chamada de "bolsonarismo" no Brasil são em sua maioria bandidos, nazifascista perversos, estelionatários, figuras com falsos valores morais e comportamento amoral, figuras completamente imbecilizadas pelo pentecostalismo e neopentecostalismo fundamentalista e dirigidos por charlatães da fé Cristã, mas, de forma geral todos têm uma forte tendência nazifascistas.

A ideologia burguesa pariu o ovo da serpente do nazifascismo a brasileira, e capturou para suas fileiras a parte mais abjeta, o setor mais retardado cognitivamente e mais perverso da população brasileira. O resultado desta combinação bombástica de perversidade com retardamento cognitivo, irracionalidade política e social, só poderia culminar em uma tragédia social lastreada pelo fundamentalismo religioso e ódio de classe que a história chamou de nazifascismo.

E são essas pessoas, agora sendo usadas pelos nazistas que se escondem por trás de pequenas e médias empresas originárias da classe média branca e do agronegócio desonesto, que formam o braço do nazismo no país, que desde que perderam o processo eleitoral atentam contra a democracia, mesmo sendo esta, a democracia burguesa deste país culturalmente atrasado. 

Foram estes ignorantes, alienados, analfabetos funcionais, fanatizados, fundamentalistas pentecostais e neopentecostais, que formou a base do nazismo bolsonarento no Brasil e este povo não vai desaparecer tão fácil do nosso tecido social. Esta gente emburrecida e perversa veio para ficar, não para sempre ao certo, mas, levará algum tempo para que voltemos a dialogar com estas figuras que certamente padecem de uma patologia social perigosa, a exemplo do que aconteceu no dia 08 de janeiro de 2023, quando uma horda insana e descontrolada, invadiu a Praça dos Três Poderes, e depredaram os três prédios dos três poderes constituídos da nossa democracia.

O nazifascismo é uma vertente do capitalismo que deixa claro a face mais perversa da ideologia burguesa. Em todos os momentos em que ele apareceu na história humana disseminou ódio, violência e terror. Aqui no Brasil o nazifascismo tem mostrado o quanto ele é nocivo, perigoso, disseminando a semente do mal por todo o país. Tivemos os quatro anos mais odiosos de nossa história após a “redemocratização”, e não podemos permiti que esta tendência cruel e destruidora tenha mais espaço em nossa sociedade. 

 É o momento de resistimos a esta horda insana, alienada e cheia de ódio contra tudo que não esteja dentro do padrão branco instituído pelo capitalismo radicalizado da Europa e EUA. Precisamos unificar as esquerdas, os movimentos sociais populares, os sindicatos da classe que vive do trabalho e derrotar definitivamente estes perversos em nosso tecido social, não vamos permitir que mais uma vez este “mau” se estabeleça no nosso Brasil.

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