Professor Gabriel Azevedo Costa Lima*
As datas cristãs, a exemplo do São João, do Natal, e outras, remetem ao processo civilizatório, usando o termo sem valorar, da imposição da fé cristã. Bom dizer que Cristo e fé cristã, a moda histórica tradicional, não convergem na essência de objetivos. O senhor colonizador que quer catequisar, a sua conveniência de julgamento e interesse, todo o mundo "exótico" (povos coloridos, "animistas", "fetichistas", "profanos", "selvagens", "libidinosos", "ignorantes") customizou a fé cristã para um molde bem comportado ao estilo de vida das sociedade europeias "brancas", capitalistas de moralismo castrador e toda leva de contradições.
No evangelho não se encontrará bulas que orientem o comportamento sexual, padrões de decência pautadas em vestes ideais para homens, mulheres, distinção de nenhum tipo que qualifique o grau de valor de um ser humano, fosse por seu sexo, cor, sexualidade, cultura a que pertence, poder aquisitivo, cor da pele, origem, ou qualquer outra bobagem criada pelas sociedades humanas.
Agora, no meu crivo de percepção, me chama notável atenção o aspecto revolucionário do amor propagado pelo Galileu sem se ater a nenhuma amarra de tradição de seu povo, judeus, ou mesmo do poder temporal romano, que controlava o mundo antigo com punhos cerrados de aço.
Frustra seu povo quando ao contrário das interpretações das anunciações feitas pelos profetas, ele não torna-se o rei esperado, aquele que com super poderes submeteria a todos, o Império Romano inclusive, aos desígnios do povo eleito, trazendo uma era de glória e de ascensão aos judeus e a cultura judaica imposta a todos como a única verdadeira, vontade inconteste de Jeová, O Deus Senhor dos Exércitos. Não, ele traz a mensagem do poder espiritual, do amor, que nada tem haver com opressão, submissão, imposição do forte sobre o mais fraco. Reverteu o sentido de força e virtude propagado até então no mundo.
Frustrou também o Império Romano, que tolerava as práticas religiosas da tradição judaica por serem fechadas a um povo que não ameaçava o poder romano. Jesus traz uma nova filosofia, cosmologia, que marca a necessidade de se propagar aos quatros ventos. A filosofia do amor não seria posse, exclusividade de um povo eleito, mas sim uma centelha a ser acesa em qualquer coração de homem/mulher de qualquer condição. Quanta audácia desse judeu se julgar mais que Roma hein!...
Dois mil anos se arrastam em deturpações, em uso do evangelho pra oprimir, julgar, excluir. É estranho ver a cruz cristã ostentada nas formas de exploração, nas guerras do passado e atuais de combate violento ao mundo vivido pelo outro. A ideia do evangelho é de uma revolução pelo sentimento, de dentro pra fora, quando se coloca força da brutalidade, do julgamento, se estraga tudo. E vai-se estragando, na cegueira, na obtusidade da violência e da soberba.
A força espiritual vem da leveza, da firmeza, da compaixão, o resto é maluquice...
"Compaixão é fortaleza. Ter bondade é ter coragem!" (Renato Russo)
Feliz Natal queridos!!!
(*) Gabriel é historiador, professor da Rede de Educação do Estado da Bahia, atuando no município de Vitoria da Conquista - Ba.

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