quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

DE FUTEBOL EU ENTENDO


POR PROFESSOR JOÃO PAULO

Ao contrario do que pode sugerir o titulo deste ensaio, este texto não é para afirmar minha superioridade em relação ao conhecimento sobre o futebol, nem tão pouco para ser prepotente ou arrogante com o olhar do outro sobre o principal esporte deste país. Na realidade eu respeito muito o ponto de vista de quem tem outros posicionamentos sobre qualquer tema, até mais do que deveria, às vezes eu acho que deveria ser mais enfático e mais imperativo na defesa de minhas posições políticas sobre tudo, mas, este meu jeito de ser, sigamos em frente.

Este pequeno ensaio, e eu espero que seja pequeno mesmo, é para reforçar algo que eu ainda não conseguir passar para as pessoas oralmente, confesso que sou um pouco melhor na escrita do que com as palavras e às vezes não me faço entender com clareza.

Outro dia em uma conversa com amigos sobre futebol ouvir a afirmação de que Messi é depois de Pelé o maior jogador da história do futebol. Achei meio exagerado! Como de costume refutei a esta afirmação, afinal, jamais poderia concordar com uma blasfêmia, uma heresia, como esta no mundo do futebol. Esta afirmação nega peremptoriamente a história do futebol mundial, sou historiador e tenho que fazer estas refutações para que a historiografia não seja inverídica.

Até acredito que a pessoa que fez esta afirmação tenha o direito a fazê-la, afinal, é jovem de duas gerações posteriores à minha e de fato, concordo que de sua geração Messi tenha sido o melhor jogador que ele viu jogar, realmente ele é o melhor jogador de futebol das duas ultimas gerações de jogadores. Mas, há nesta afirmação uma contradição geracional, se este interlocutor não pode falar sobre Zico, Roberto Dinamite, Falcão, Michel Platini, Maradona, Mário Kemps, De Stefano, Rummenigge e outros jogadores do passado, também não poderia falar do Pelé, que é um jogador ainda mais velho que os enumerados acima.

Não resta dúvidas que o Messi é um jogador muito acima da média entre todos das duas ultimas gerações de atletas do futebol mundial, um dos poucos craques em atividade no mundo e entre os três que eu considero craques ele é o melhor. Mas, isto é em relação à sua geração de jogadores. Ele entrará para a galeria dos grandes jogadores de futebol de todos os tempos, acredito que tenha este direito, porque é um ótimo jogador e um ótimo ser humano, mas, afirmar que ele é melhor do que tantos outros jogadores que já têm seu nome marcado nesta galeria dos grandes craques. Achei forçado de mais!

Enquanto este bate papo se desenrolava, se desenvolvia, percebi que nas falas do interlocutor soava um tom de: zorra você radicaliza de mais a defesa dos jogadores do passado em detrimento dos jogadores atuais, ou algo do tipo você está preso ao passado. Enquanto o dialogo se desenvolvia outro amigo que estava ali ao lado, me olhava com um olhar repreensivo, como se dissesse este cara é mesmo do contra, e novamente veio à tona o fato de eu ter escalado três jogadores do Botafogo para uma seleção brasileira que convoquei em tom de brincadeira, formada só por atletas que atuam no futebol brasileiro, chegando a fazer novamente a pergunta que me fora feita em três grupos que postei a minha seleção na época da copa do mundo, fato que já trouxe para o debate em outro ensaio, “quem é Tiquinho Soares?”

Eu, só em ver a forma como uma pessoa domina a bola, sou capaz de dizer se ele será ou é um bom jogador ou jogadora. Uma vez em uma viagem com amigos, o filho de uma amiga jogou futebol pela primeira vez, acredito que ele tinha de cinco a seis anos de idade, e no momento em que ele tocou na bola pela primeira vez, eu e o padrasto dele nos olhamos e eu afirmei: este moleque vai jogar muita bola, hoje, ele é o melhor ou ao menos um dos melhores jogadores de futebol da escola em que estuda. Outra vez, brincando de bola na porta da casa de amigos em que passava o domingo, uma criança de uns cinco anos pediu para brincar conosco, quando paramos de brincar e o menino foi para sua casa eu disse para meu filho e meu ex-concunhado, vei este moleque vai ser profissional de futebol, e este menino cresceu, e se tornou jogador profissional.

E tenho este dom de perceber tecnicamente e de forma muito rápida quem sabe ou não jogar futebol. Só me enganei uma vez sobre pessoas que vi jogar futebol pela primeira vez e disse que os dois meninos não teriam futuro no futebol, um deles foi meu próprio filho, que a primeira vez que vi jogar achei muito ruim e um de seus amigos. André e Fred foram duas apostas erradas, acreditei que nunca aprenderiam a jogar futebol e os dois se tornaram bons jogadores na adolescência e juventude, até acho que ambos deveriam ter tido a oportunidade de terem se profissionalizado, quando vejo que jogadores como Ribamar e muitos outros que estão no futebol atual, se profissionalizaram e chegaram a ganhar muito dinheiro no futebol profissional.

Eu conheço deste esporte, minhas análises são técnicas e táticas, não discuto futebol por achismo ou por torcida. Quando afirmo que a seleção brasileira comete um erro há dez anos, quando começou a escalar o Neymar de meia de criação. Tecnicamente este jogador não tem as características para cumprir esta função no futebol e taticamente cria um time com um meio de campo inoperante, pouco criativo. O rapaz é bom jogador, mas, é claramente um ponta habilidoso com boa capacidade de definição de jogadas, mas, é um “cabeção” no quesito criação, com ele nesta função, a seleção brasileira só será campeã do mundo se todos os adversários estiverem em um nível muito abaixo da nossa seleção.

O mais trágico é que nós estamos vivendo uma enorme crise no futebol mundial quando falamos de jogadores criativos, meias, ou como chamávamos antigamente, pontas de lanças, este tipo de jogador, que pensa jogo e que enxerga o jogo antes dos demais jogadores em campo estão escassos. Em nenhum país do mundo têm surgido jogadores com esta característica, o que chega mais próximo disto é o Luka Modric da seleção da Croácia e do Real Madrid, que infelizmente está em fim de carreira, em função da idade. 

Aqui no Brasil temos alguns jogadores que cumprem esta função, o Paulo Henrique Ganso no Fluminense, que em minha opinião é o melhor jogador que surgiu no futebol brasileiro nos últimos dose anos, o Rafael Veiga do Palmeiras, bom jogador, não conheço bem a origem dele, mas, vi jogar algumas partidas, duas para ser mais exato e gostei muito do futebol praticado por ele, o Nenê do Vasco, muito bom jogador, pena que está em final de carreira também, o Gustavo Scarpa que jogava no Palmeiras, não sei se continua no time do Palestra Itália, e os dois do Flamengo, Everton Ribeiro e Arrascaeta, dois grandes jogadores de futebol,  desconheço que se tenham outros com característica de jogadores de criação, sim, vi ontem em um canal que o Lucas Lima, um bom ponta de lança que surgiu a alguns anos atrás ainda está na ativa, apesar de fora dos holofotes da grande mídia e dos grandes clubes. Não posso deixar de lembrar do colombiano James Rodríguez, um ótimo jogador que me parece fora do mercado para os grandes clubes de futebol do mundo.

Mas, o que eu queria mesmo discutir neste texto e isso é algo que me incomoda bastante, é o discurso de que o futebol de hoje é mais difícil de ser jogado do que o futebol de antigamente, não estou dizendo que nesta conversa que deu início a este ensaio foi dito isto. Na verdade eu sempre ouço isto na própria grande mídia, outro dia ouvir uma conversa de um destes comentaristas esportivos da SPORTTV, que “o melhor jogador brasileiro depois de Pelé é o Neymar”, precisou um Sérvio rebater a bobagem que o maluco afirmou. Estas afirmações de que o futebol hoje é mais difícil de ser jogado do que antes, e que Garrincha e Pelé teriam dificuldade de jogar o que jogaram lá na década de 50, 60 e 70, e que os jogadores da década de 1980 e 90 teriam também dificuldades para jogar atualmente é de uma falta de compreensão da realidade sem tamanho.

Galera, estes caras jogavam com uma bola que pesava quase ½ kg, feita de couro puro, sem nenhuma tecnologia, quando chovia a bola encharcava e passava a pesar quase 1 kg. Jogavam com chuteiras na maioria das vezes com trava de ferro, com um couro duro, em um gramado pesado, de grama comum, o regramento do futebol não era pensado profissionalmente, já que o futebol ainda era quase amador e não coibia jogadas mais violentas. Os atletas não recebiam os cuidados médicos, nutricionais e psicológicos necessários para ampliar a capacidade física e não tinham os recursos necessários para treinamento como há hoje em dia e os caras arrebentavam, jogavam um futebol bonito que encantou o planeta.

Hoje a bola é fabricado sob medida para o tipo de gramado, com um material sintético e impermeável, as chuteiras são feitas sob medida, adaptadas ao clima local, ao tipo de gramado, tem chuteiras para dias de calor, para dias de chuva. Foram criados gramados especiais para os campos de futebol, os clubes tem fisiologistas, nutricionistas, um departamento médico avançado, um departamento físico com profissionais especializados para a formação física dos atletas, regramentos que impedem jogadas mais violentas, e muito dinheiro, transformando jogadores, empresários e patrocinadores destes jogadores em magnatas dos esportes, criando novos milionários e cifras nunca pensada para o mundo dos esportes.

Imaginem gênios do futebol, como Garrincha e Pelé inicialmente, e depois, craques como, Didi, Heleno de Freitas, Nilton Santos, Coutinho, Clodoaldo, Rivelino, De Stefano, Eusébio, Mário Sérgio, Maradona, Zico, Roberto Dinamite, Falcão, Mario Sérgio, Platini, Rummenigge, Beckenbauer, Cruijff, Roger Milla, Romário, Edmundo, Juninho Pernambucano e tantos outros jogando com todo este aparato tecnológico, médico, psicológico e físico, estes caras estariam voando no futebol atual, unindo a capacidade técnica individual aos avanços científicos que norteiam o atual estágio do esporte, cada atleta destes seria imbatível.

Não escrevi este ensaio com o objetivo de fazer oposição a ninguém que pensa o futebol a partir de um prisma diferente do meu, não foi mesmo a minha intenção, e nem discuti aqui questões referentes a subjetividades, nem também a questões ideológicas que envolvem o debate sobre qualquer coisa neste mundo determinado pela ideologia burguesa dominante. A intenção aqui é só apresentar o meu olhar sobre as coisas e vi no futebol um bom tema para ser discutido. A apresentação do diálogo que tive com amigos e os outros exemplos que citei no texto, serviram apenas como uma alegoria, como ilustração para referenciar as ideias que trouxe depois sobre estas comparações que geralmente são feitas entre jogadores e sobre o futebol neste debate geracional.

Se os jogadores que minha geração viu jogar, eram craques de futebol, Garrincha e Pelé, e sempre coloco Garrincha primeiro, pois, defendo que ele foi melhor que Pelé, não eram craques, eram gênios do futebol, estão num patamar que até hoje ninguém conseguiu alcançar. Os outros eram craques, hoje é impossível traçar um quadro comparativo entre os craques da década de 1980 do século XX com os jogadores de hoje. E eu considero craque o jogador capaz de mudar um resultado de uma partida com um lança genial, para mim bem poucos hoje conseguem fazer isto, Messi, Modric, Mbappé, Paulo Henrique Ganso, que voltou a jogar muita bola no ano passado, e nesta última copa, quero fazer o destaque para um cara que jogou uma copa impecável, a melhor de sua carreira, o francês Griezmann.

Em minha opinião, nesta geração só o Messi merece o título de craque, nenhum outro jogador merece o título no momento atual, por mais que a grande mídia esportiva badale vários nomes. Tem muitos jogadores bons no futebol mundial neste momento histórico, longe de mim negar que tem uma meninada despontando aí, inclusive aqui no Brasil, mas, craques do futebol ainda não surgiram no horizonte, talvez o Mbappé se continuar jogando futebol com seriedade, nesta copa já o achei meio de sapato alto.  A ausência de craques no futebol atual é um fato que me deixa triste, pois, sou apaixonado por este esporte e quero voltar a ver com alegria a grandes jogos nos campeonatos nacionais ou numa copa do mundo.

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