terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO E OS DESAFIOS DO NOVO TEMPO

POR PROFESSOR JOÃO PAULO 


Estou voltando com um debate que já fiz anteriormente, mas, que acredito ser importante que seja feito sempre que pudermos neste campo em que discutimos o mundo, a história humana, numa perspectiva da superação integral de toda forma de dominação, de exploração do homem pelo o homem, toda forma de opressão do Ser. 

Desde a formação das primeiras civilizações politicamente organizadas e do aparecimento da propriedade privada dos meios de produção, que os setores historicamente oprimidos, se organizam para superar a opressão imposta sobre eles por quem detém os meios de produção. 

Foi assim durante o "modo de produção Asiático", também no "modo de produção Escravista", no "modo de produção Feudal" e está sendo assim no "modo de produção Capitalista". Sobre este último, ainda em pleno vapor no mundo, temos a maior quantidade de estudos sistematizados sobre a estrutura desta opressão sobre a classe que vive do trabalho, classe social dominada no modo de produção Capitalista, e os caminhos políticos para superar essa opressão.

Não é novidade e nem segredo para ninguém de que todos os modos de produção já postos em prática pelos seres humanos até o presente momento, foram baseados na produção de riquezas, produzida pela classe política que não possuí a propriedade dos meios de produção e por isso são explorados por aqueles detentores dos meios de produção. 

Também não é novidade para ninguém que todos os modos de produção existentes até este momento histórico, tiveram e tem como objetivo produzir riquezas, para a acumulação dos proprietários dos meios de produção, enquanto a classe que vive do trabalho é expropriado do acesso à estas riquezas produzidas por eles.  

Neste sentido, as relações econômicas realmente são sobrepostas às outras relações sócio-políticas, até, às relações interpessoais, estão subordinadas ao modelo de desenvolvimento econômico. Mas, o que é preciso dizer é que estas relações econômicas se realizam numa relação orgânica com todas as relações sócio-políticas e culturais, pois, ainda hoje, entrando na terceira década do século XXI este debate ainda é por muitas vezes secundarizado nas academias e na esquerda de forma geral.

O mais incrível é que em pleno século XXI, quase dois séculos após às primeiras produções de Marx e Engels, e consequentemente quase dois séculos após as produções de boa parte dos marxistas que produziram tendo como matriz do pensamento, os estudos, de Marx e Engels, mesmo diante das profundas transformações estruturais sofridas pelo modo de produção capitalista, amplos setores da esquerda mundial ainda não se deu conta da necessidade urgente de ressignificar o pensamento marxista e trazê-lo para o século XXI. 

Não temos mais uma classe operária fincada no chão da fábrica, o proletariado formal está em curso de desaparecer, os grandes conglomerados industriais estão em rota de extinção, os bancos como foram criados também estão caducando e em pouco tempo caberão na palma de nossas mãos, os avanços tecnológicos, cientificos, estão mudando a estrutura do trabalho. A classe trabalhadora não se reconhece como classe, o mercado financeiro assume o lugar do capital produtivo, o capitalismo está mudando rapidamente neste novo século, o setor terciário ganha espaços produtivos que eram do setor secundário, a única coisa que se mantém imutável, desde o século XIX é a exploração da mão de obra dos trabalhadores pelo capital. 

Sei que muitos podem questionar essa afirmação e argumentar que a estrutura do capitalismo continua sendo a de acumulação da riqueza nas mãos da burguesia enquanto grande parte da população divide migalhas, e concordo com isso. Mas, o paradigma capitalista se alterou profundamente, o mecanismo de exploração do trabalhador pela burguesia se aprimorou radicalmente a tal ponto, que o trabalhador não consegue mais se perceber como um explorado, como um oprimido e o resultado disto é o completo controle cultural da classe que vive do trabalho por uma cultura capitalista a cada década mais enraizada em todo o mundo, em todos os segmentos sociais de todo o planeta.

O fortalecimento da cultura capitalista nesta aldeia global, só é possível porque o modo de produção não é somente modelo de organização econômica, ou política, ou cultural. Os modos de produção foram, são e serão, a fusão orgânica de tudo isso, que torna cada modelo resistente à todas as entemperes, econômicas, sociais e políticas, resistente ao enfrentamento da classe política economicamente e culturalmente dominada e esta organicidade entre todos estes fenômenos sociais é que sustenta a hegemonia da classe dirigente por séculos. 

Somente a completa exaustão das estruturas que dão sustentação ao modelo de desenvolvimento dominante pode provocar a ruptura estrutural com o modo de produção dirigente em um "bloco historico". Esta completa exaustão é produto do próprio desgaste histórico das estruturas políticas, econômicas e culturais do modo de produção, e de uma ação politica eficiente da classe social dominada por ele, que consciente de seu papel histórico como classe revolucionária, se organiza para a tomada do poder político. Esta consciência precisa garantir a hegemonia política, econômica e cultural para a nova classe social, que pretende se torna hegemônica e assume o papel de construtura de um novo paradigma civilizatório. 

O processo de revolução, ou seja, a ruptura estrutural com um modelo de desenvolvimento só se dar em longa duração, não há possibilidade desta ruptura acontecer em curta e média duração, claro que esta é a minha leitura do processo histórico e político, a partir das leituras que tenho feito, tanto dos clássicos das ciências humanas e sociais, também a partir das leituras de novos pensadores que têm se debruçado nos estudos deste novo mundo que nasce a partir da década de 90 do século XX e que estão discutindo as transformações ocorridas no mundo a partir das transformações do capitalismo, e também a partir de minhas observações da realidade, tendo como base minhas leituras e minhas próprias análises e elaboração teórica observando a cena política contemporânea. 

Não creio mais na possibilidade de superação do capitalismo se não houver uma transformação de toda a estrutura do bloco histórico que estamos vivendo. Para que tenhamos a possibilidade de construir um novo mundo, pautado na igualdade fundamental entre todos, pautado na justiça social, na superação de toda forma de opressão do Ser, é fundamental que todos os pilares de sustentação do capitalismo seja estruturalmente superados. Para mim é condição "sine qua non" que comecemos a pensar o "novo Adão" (novo homem) livre por completo de toda cultura burguesa. Somente um Ser novo, será capaz de produzir este mundo novo que fervilha em nossas utopias políticas, como pode um homem velho construir um novo mundo? 

Sempre ouço em tom de sarcasmo e ironia, a frase "você é um sonhador, um idealista'", devo afirmar que para mim não é nenhum demérito em ser "sonhador e idealista", na verdade é motivo de orgulho mesmo, parte dos maiores nomes da história foram sonhadores e idealistas.

Não consigo descolar a relação objetiva e material da sociedade, do mundo das ideias, não consigo conceber uma coisa sem a outra, leio esta relação como uma "via de mão dupla". No mundo entendo que todas as relações sejam complementares, não dá para fazer a distinção entre os mundos. E muito em função disto que não consigo crer na possibilidade de vivermos um processo revolucionário em médio e curto prazos, afinal, apesar da clara crise do modo de produção capitalista desde 1999, e até agora sem uma resolução efetiva, a classe dirigente deste "bloco histórico" tem conseguido manter inabalável e reprodução do capital, a acumulação das riquezas produzidas pela classe que vive do trabalho, e ao mesmo tempo, mesmo diante de uma crise profunda do paradigma burguês, mantém como nunca o controle cultural da sociedade.

Neste início de século XXI, a burguesia está reestruturando, ou mesmo, construindo um novo paradigma capitalista, tendo como base a manutenção do processo de reprodução do capital e da exploração da mão de obra da classe que vive do trabalho. 

Para mim está evidente que a burguesia está produzindo um novo paradigma estrutural capitalista, que tem como pressupostos fundamentais, a reorganização do mundo do trabalho, novas ferramentas de reprodução do capital e uma adequação da cultura burguesa para este momento histórico de intensa transformações econômicas, tecnologicas e políticas. 

O trabalhador precisa deixar de se reconhecer como operário, proletariado, camponês, e entender que ele avançou para a condição de micro-empreendedor individual. Desta ideia deriva as novas formas de organização do trabalho e das leis que orientam o trabalho. Surgiu a terceirização, o MEI, o trabalho temporário e o trabalho intermitente. O processo de flexibilização das aposentadorias e o crescimento da informalidade consentida pelo próprio trabalhador.

Só que para que estas mudanças objetivas possa acontecer sem a resistência da classe que vive do trabalho é necessário fazer com que a classe dominada passe à acreditar que todas estas mudanças que estão surgindo no mundo do trabalho, sejam aceitas como benéficas para o conjunto da sociedade e, sobretudo, como um processo natural da própria evolução da sociedade.

É em função desta cultura que gradualmente se enraizou em nosso tecido social, que hoje, nós que militamos no campo de esquerda e de centro-esquerda perdemos o lugar de fala, e falamos o tempo todo para nós mesmos, para nossos pares. É em função deste enraizamento de uma cultura burguesa a cada década mais consolidada que no Brasil, somente 26% da população se reivindica de esquerda e destes 26%, a maioria estão nas classes B e C da sociedade, somente 32% são das classes D e E. 

Estes dados que foram tirados de uma pesquisa DATAFOLHA anterior ao processo eleitoral de 2022, mostra o porque de um candidato que não tinha nada para mostrar em seus quatro anos de governo, conseguiu dividir o país, quase pela metade, afinal, o resultado final do pleito no segundo turno de 2022, foi 50,90% contra 49,10%. Este números mostram que a população brasileira não conseguiu fazer distinção entre os projetos que disputavam a eleição. 

Se fizermos referência aos EUA, perceberemos claramente um cenário muito próximo do que vimos aqui no Brasil. Não há distinção entre os projetos políticos que estavam na disputa. Mesmo tendo um sistema eleitoral diferente do Brasil, o percentual de votos entre os dois candidatos principais foi quase divido pela metade, 51,4 % para Biden contra 46,9% do Trump. Se estendermos este olhar para a França que também viveu o pleito eleitoral em 2022, veremos que a extrema-direita de Le Pen obteve 12 milhões de votos contra 17 milhões de Macron, com o apoio de outros candidatos que disputaram o primeiro turno. E se continuarmos observando os processos eleitorais por todo o mundo veremos que em todos os países do mundo, não há mais em perspectivas de diferenças entre os projetos políticos postos em disputas. 

O que todos estes números nos dizem do ponto de vista holístico e sociologico? A cultural capitalista nunca esteva tão consolidada, a ponto da população mundial não fazer mais nenhuma distinção entre os projetos políticos em disputa na sociedade.

Ao mesmo tempo, esta naturalização do capitalismo como algo "ad aeternum", que a burguesia conseguiu introduzir no imaginário coletivo, na forma de "cultura de massa" estabelecida por ela através de uma enorme engrenagem de "indústria cultural", vem aprofundando sem resistência, as raízes do capitalismo. Não podemos acreditar que o crescimento da extrema-direita direita e de seus valores sociais e políticos, seja algo natural. Isso é parte de um projeto de poder que está sendo posto em prática pelo capital em todo o mundo. 

Todas as vezes que o capital mergulha em uma crise profunda o nazifascismo é chamado para o jogo político. Claro, que este processo é muito mais complexo, afinal, se trata de um processo histórico com todas suas variantes políticas. Mas, imagine que é muito mais fácil para o capital, ter na direção do Estado em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento governos autoritários, que coloque em prática de forma radicalizada o processo de acumulação de riquezas para o capital financeiro internacional, sem que haja resistência da classe que vive do trabalho, pois, esta teve suas bandeiras de lutas destruídas por um Estado autoritário e completamente submetido aos interesses do capital imperialista, como o que acontece hoje no Leste Europeu e estava acontecendo no Brasil desde 2016.

O nazifascismo é na realidade a radicalização do capitalismo em sua vertente mais perversa a necropolitica de caráter ultraliberal, sempre foi, muito mais opressor e com a exploração da classe que vive do trabalho elevada à décima potência, e este modelo de sociabilidade só é possível de se estabelecer no momento em que a cultura capitalista detém completamente a hegemonia cultural da sociedade. Foi assim da primeira vez em que o nazifascismo surgiu no início do século XX em um momento de crise do capitalismo e em função da ameaça Soviética, era preciso radicalizar a dominação cultural, econômica e política. E está surgindo agora neste início de século XXI, exatamente no momento em que novamente o capitalismo se aprofunda em uma crise econômica e a hegemonia norte-americana e da Europa Ocidental é questionada pela expansão econômica e política da China, da Rússia, da resistência de países que cansaram de serem escadas para o advento do capitalismo imperialista das grandes potências Ocidentais, sob a direção dos EUA.

Por que fiz todo este relato relacionando momentos históricos e análise sociológicas? Para tentar passar a ideia de que não dá para falar em revolução socialista ou de superação do capitalismo observando apenas um único aspecto da engrenagem social vivenciada neste bloco histórico. Não dá para mudarmos somente os aspectos econômicos da sociedade burguesa, não dá para mudar somente os aspectos políticos da sociedade burguesa, não dá para mudar somente as relações sociais ou somente a cultura hegemônica da sociedade burguesa. 

Para conquistar o poder político e construir outro paradigma civilizacional é fundamental que toda a estrutura do modo de produção dominante seja superado ao mesmo tempo. É preciso que a vanguarda revolucionária da classe que vive do trabalho, esteja o tempo todo em "estado permanente de revolução", o que isto significa na prática? Todos nós que fazemos política numa perspectiva de esquerda, tendo como objetivo a superação do capitalismo, já estamos construindo o processo revolucionário. 

Passar o conhecimento para outra pessoa é um ato revolucionário, pois, a revolução está em curso desde que o capitalismo nasceu como modo de produção dominante e trouxe em sua estrutura o socialismo, a classe que vive do trabalho, que é "germe" criado pelo capitalismo para destruí-lo. O sociólogo Antônio Cândido afirma que "o socialismo é totalmente triunfante desde que surgiu com a revolução industrial" e ele está corretíssimo ao afirmar isto, tudo que a classe trabalhadora conquistou até hoje foram vitórias do socialismo, que continua a impor ao capitalismo pautas da classe que vive do trabalho. 

No entanto, estes avanços conquistados durante o século XX estão sofrendo agressões e retrocessos neste início de século XXI, pois, o capitalismo conseguiu uma hegemonia cultural ainda não experimentada a partir da década de 1990 do século passado. Mesmo mergulhado numa profunda crise econômica o que leva diametralmente a uma crise política e social, a classe que vive do trabalho, mesmo os setores mais organizados, não conseguem, compreender o socialismo como alternativa ao capitalismo.

Esta falta de perspectiva de um modo de produção construído a partir da classe que vive do trabalho, abre espaço para o fortalecimento nazifascismo, ou mesmo, à continuidade do capitalismo liberal humanizado, como alternativas de mudanças na qualidade de vida dos trabalhadores, este é o principal gargalo criados pelo predomínio da cultura burguesa sobre o mundo, além de conflitos armados, a destruição de ecossistemas e a perpetuação do processo de exploração do homem pelo homem.

Diante deste quadro é condição "sine qua non" a intensificação da condição de "revolução permanente" desta vanguarda da classe que vive do trabalho em todo o mundo. É preciso conquistar todos os dias um coração, uma mente, para o engajamento na luta pelo socialismo, ao mesmo tempo, é preciso que os partidos políticos de esquerda, todas as vezes que tiverem a oportunidade, coloque em prática ações que despertem o interesse popular para a luta pelo socialismo, seja na direção do Estado Burguês, seja nos sindicatos, seja nos movimentos sociais, em espaços lúdicos, na educação, na religiosidade, nas relações interpessoais.

A burguesia desde o inicio do século XX, transformou tudo em ferramenta para difundir a cultura burguesa para toda a sociedade. A vida foi transformada em um veículo para impor a classe que vive do trabalho a visão de mundo da burguesia.

O socialismo precisa acontecer, assim como o capitalismo acontece, em todos os momentos da vida. É preciso investir maciçamente na formação de uma cultura socialista, que consiga desenvolver uma relação dialógica com a classe que vive do trabalho, e que faça oposição cotidiana à cultura capitalista

Desta forma colocaremos a revolução socialista na pauta cotidiana de toda a classe que vive do trabalho. Se nós "vanguarda do proletariado" usando um termo marxista leninista, não entendermos que a revolução já está em curso há dois séculos, ficaremos para trás nesta disputa pela hegemonia da sociedade. Nós já estamos fazendo a revolução desde que iniciamos nossa militância, quando conquistaremos a hegemonia da sociedade? Somente o processo histórico irá dizer. 

O que é certo é que este processo é muito mais complexo do que o que nos diz todas as teorias revolucionárias propostas até este momento, precisamos ressignificar todas as teorias e trazê-las para este bloco histórico, dotá-las da complexidade que é o mundo contemporâneo e adequá-las aos novos desafios que nos são impostos por este novo capitalismo que se desenha a nossa frente, e não desistir nunca da utopia do socialismo. Este é nosso papel histórico, este deve ser nosso papel militante e esta é nossa luta, sigamos construindo nossa utopia factível.

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