sábado, 25 de fevereiro de 2023

O SOCIALISMO AINDA É O OBJETIVO, SÓ PRECISAMOS VOLTAR A LER O MUNDO


POR PROFESSOR JOÃO PAULO


Como a cultura burguesa se tornou tão dominante a ponto de contaminar até mesmo os setores sociais, que lutam em defesa do socialismo no Brasil e no mundo? É um questionamento que devemos nos fazer todos os dias, afinal, o futuro da classe que vive do trabalho e do socialismo é que estão sendo questionados neste momento histórico.

Vamos então olhar de perto como a ideologia burguesa influência diretamente no projeto de construção de uma nova sociabilidade mundial. É isso, para início de conversa, não se trata de uma disputa política apenas dentro das fronteiras do país é uma luta política por uma nova sociabilidade global. 

O capitalismo está destruindo a vida em todo o planeta. Este modelo está agredindo radicalmente o meio ambiente, atacando as relações humanas em suas estruturas, destruindo a vida em todos os seus fundamentos. Como foi dito por Marx e Engels, o capital transformaria tudo em "coisa", em mercadoria, e chegamos ao ápice das transformações que o capitalismo pode impor sobre o mundo e sobre o equilíbrio da vida em nosso planeta. 

Ainda assim, a esquerda mundial continua fazendo o enfrentamento ao capitalismo nos mesmos moldes dos primeiros movimentos do início do século XX. Cada um em seu quadrado, disputando espaços para provar que um grupo é mais revolucionário do que o outro, que cada partido é mais de esquerda do que o outro, que cada movimento social tem mais motivos para existir do que o outro, que cada oprimido é mais oprimido do que o outro, por conta disto suas lutas são mais importantes do que as lutas dos outros oprimidos.

Toda esta subdivisão dentro dos movimentos de esquerda vêm sustentadas por uma formulação teórica para justificar as subdivisões dos movimentos populares, sociais, partidos políticos de esquerda. O militante e teórico marxista leninista italiano Antônio Gramsci, em seu principal trabalho "Cadernos do Cárcere" já trazia esse debate. A ideologia dominante, impunha à classe dominada sua ideologia de forma tão orgânica, que faz com que ela pareça ser fruto da própria produção teórica da classe social dominada. Ele afirma que mesmo a "vanguarda intelectual" da classe dominada acaba envolvida de tal forma pela ideologia dominante, que não se dá conta de que também está sendo determinada por ela.

Feito este preâmbulo que trás um pouco do referencial teórico ao que quero discutir a partir deste momento, me parece claro que mesmo com todas as formulações teóricas que permeiam o universo das organizações de esquerda no Brasil, e que são muitas diga-se de passagem, que vão do stalinismo mais puro da Terceira Internacional ao Trotskismo vulgar da Quarta Internacional após o assassinato de Leon Trotski, passando pela social democracia e até social liberalismo das correntes hegemônicas do PT, a esquerda brasileira não entendeu a emergência da unificação das bandeiras de luta em torno de um projeto de nação soberana, popular e democrática. 

Ao contrário, o que temos são grupos a cada momento histórico ensimesmados, presos as vaidades próprias da competição um dos princípios estruturantes do liberalismo, e a necessidade de se provar o tempo todo como o mais revolucionário entre os revolucionários, o que coloca a causa (o socialismo) sempre em segundo plano. 

A todo momento, assistimos à disputas intestinais entre setores da esquerda. Em nosso meio, existem as esquerdas burguesas, as esquerdas moderadas, as esquerdas radicais, os anarquistas e ninguém tem conseguido dialogar efetivamente com a classe que vive do trabalho. 

Neste momento histórico, todos se reivindicam "Marxistas Leninistas". Sociais democratas e sociais liberais, revisionistas, stalinistas, trotskistas, morenistas, todos romperam em algum momento da história com suas posições anteriores e agora são todos "Marxistas Leninistas". Na prática, todos originários da classe média e até trabalhadores que ascenderam à condição de lideranças populares, mas, todos descolados da realidade objetiva da classe que vive do trabalho, todos vivendo o marxismo como se Karl Marx fosse uma divindade e sua produção teórica fosse estática. 

Nestas capotadas que a história do Brasil dá, é bacana ver partidos que passaram os últimos setenta anos, ao menos, propondo alianças programáticas com uma suposta "burguesia nacionalista", reaparecerem pousando de revolucionários, como se a história destes partidos pudessem ser apagadas por uma nova roupagem "marxista leninista". Não podem compas!

Já há algum tempo tenho escrito na perspectiva de chamar a atenção da esquerda brasileira para a necessidade urgente de colocarmos em pauta a unificação de nossas bandeiras em nome de um objetivo maior do que vencer o processo eleitoral. Não dá mais para discutir política de dois em dois anos. 

É preciso discutir política todos os dias, repensar e recriar uma relação dialógica, uma pedagogia política, capaz de dialogar com a sociedade civil organizada e não organizada, conhecer as muitas realidades do povo brasileiro,  conhecer de verdade, e estabelecer um novo modelo de relação política com a classe que vive do trabalho, fincado nas realidades objetivas do nosso povo e sair das superficialidades dos discursos prontos, estimulados na maioria das vezes pela ideologia burguesa dominante e determinante em nosso país, esta é  uma condição fundamental para iniciarmos um novo momento de lutas em nosso país. 

Mais uma vez retomo um debate que tenho feito há algum tempo, como foi fácil para a burguesia brasileira golpear a nossa democracia, colocar a maioria do povo brasileiro contra o partido político que efetivamente melhorou a qualidade de vida de toda a população do país, que inaugurou um novo modelo de gestão do Estado Burguês, apostando na democratização das decisões políticas, colocando os mais pobres no orçamento, na condição de agentes produtivos e produtores da melhoria da sua condição de vida. Bastaram três anos de mentiras e desconstrução deste partido de esquerda pela grande mídia burguesa, para que a maioria da população acreditasse que este partido era a representação de todo o mal praticado contra o povo. 

Um discurso que não ficou apenas nas camadas sociais de senso comum da sociedade. Competentemente a burguesia produziu um discurso também de senso comum, um senso comum produzido para um "segmento exclusivo da esquerda brasileira" que até hoje repete abobalhadamente o discurso plantado no imaginário coletivo deste setor social, pela ideilologia burguesa. 

É o momento de refletirmos sobre tudo isto e começarmos a pensar uma nova esquerda socialista, se despir radicalmente desta pele carcomida da esquerda do século XX, presa às Internacionais e determinada pela ideologia burguesa e vestir uma nova pele, de uma esquerda que ler o mundo, atualiza as muitas teorias já produzidas sobre o socialismo, que não podem e nem deve serem descartadas, e a partir deste ponto, produzir sua própria ciência política para chegarmos ao socialismo neste novo século.

Está é a tarefa desta nova esquerda, das novas gerações de militantes que estão surgindo agora. Precisamos compreender isto e continuarmos nossa luta para tornar factível nossa utopia socialista, não podemos passar mais um século repetindo os erros dos nossos antecessores, ou entendemos este novo desafio ou continuaremos falando para nós mesmos o tempo todo.

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