POR PROFESSOR JOÃO PAULO
Desde muito cedo me apaixonei por música, com uns nove ou dez anos, não me lembro, afinal, já tem muito tempo isso, fui assistir ao filme OS EMBALOS DE SÁBADO A NOITE, vi John Travolta dançar e me apaixonei pelas canções do Bee Gees, desde então a música se a mais importante expressão cultural em vida.
Meu pai era músico, sim, Zé Baticabo, foi meu grande incentivador para música, todos os dias era sagrado, ele ouvia um LP em sua vitrolinha que se parecia com uma maleta preta com, alça e tudo mais, também tinha uma vermelha mais antiga. E Zé Baticabo cantava muito bem, tocava acordeom, e "tirava um samba" na caixa de fósforos que era uma beleza, uma arte sem dúvidas.
A medida que fui amadurecendo, passando da infância para a adolescência, descobri que sabia dançar, depois descobri que sabia cantar, é sim, para a surpresa de alguns eu também sei cantar, e a música ganhou uma dimensão muito grande em minha vida. Alguns anos mais tarde arrisquei fazer uns poemas e pedi a um grande amigo e músico para por uma melodia, nasceram quatro canções que foram gravadas e virei compositor.
Passei de forma empírica a pesquisar sobre música, nacional e internacional, na juventude, quando tive acesso ao meu primeiro som 3 em 1, passava minhas horas de ócio gravando fitas cassetes das rádios FM que tocavam na cidade, trabalho hercúleo, imagina ter que acertar à hora certa que acabavam as vinhetas das rádios para soltar o "REC" e começar a gravar as canções, e a ira de quando as vinhetas apareciam no meio da música, não tinha o que fazer era ouvir a música com vinheta e tudo.
Sempre tive muitos amigos músicos, que tocavam em bandas da cidade, era pra eu ter aprendido a tocar um instrumento musical, ou ter aperfeiçoado minha técnica vocal, mas fui impedido por duas razões, uma a falta de grana para pagar aulas de música, a outra razão foi a timidez, zorra eu era tímido de mais, tudo me reprimia, ainda sou, mais melhorei muito, eu tinha vergonha de tudo, fazer qualquer coisa sob o olhar de outras pessoas era muito difícil pra mim.
Até tentei cantar numa banda infanto juvenil aos 13 anos, mas, em minha estréia como um dos vocalistas, na festa de inauguração do Conquista Center, havia ensaiado três canções, quando chegou minha vez de me apresentar, faltou coragem, não subir no palco, pena que eu ainda não bebia, pois, quando tomo uma fico mais descontraído.
Este acontecimento encerrou minha carreira antes de começar. Depois da amarelada, cantar em público para mim se tornou ainda mais difícil, só voltei a subir em um palco, 7 anos depois, quando já participava do MOVENS, e resolvi junto com alguns amigos montar uma banda de rock para uma apresentação no salão Dom Vital na Catedral de Vitória da Conquista, foi massa, nasceu a Banda Estrela Vermelha, que só tocou duas vezes.
Aí veio a faculdade e resolvi verticalizar na pesquisa sobre música. Sou historiador e nesta função, pesquiso sobre música, agora de forma sistematizada, defini um objeto de pesquisa e faço minhas pesquisas, não pretendo produzir sobre música, ao menos até este momento, mas, gosto de entender o percurso feito pela música brasileira desde a década de 1950. Claro que para fazer uma boa pesquisa tive de aprender um pouco sobre o tema. Lendo, ouvindo músicos, discutindo com artistas, aprendi algumas coisas sobre técnica musical, o que tem me ajudado até na hora de cantar e tomar umas cervejas. Afinei meus ouvidos, conheço os tons, aprendi a modular a voz, a solfejar, descobrir que sou barítono, massa de mais.
Hoje aos 50 e tantos anos, aprendi muito sobre musica, e me tornei chato pra caramba quando o assunto é música, por isso mesmo evito discuti o tema com outras pessoas, mas, tenho a escrita como recurso para manifestar minhas opiniões, sem ser inoportuno com pessoas em função de minhas posições, que posso dizer, são técnicas, não tanto como eu gostaria que fossem, mas, são sim.
Todo este floreado é para dizer que há um movimento nacional que tem o objetivo e está cumprindo esta função de naturalizar todo estilo musical como música boa, chamando a cultura de massas produzida pela "indústria cultural burguesa" de cultura popular. Claro que este movimento se restringe em convencer o senso comum desta narrativa, mais o problema é que 90% de nossa população é de senso comum e se naturalizou a ideia de que música é uma questão de gosto pessoal.
Não é! A música mundial está submetida à lógica do mercado e o mercado é o lado político que não interessa a 90% da população mundial, mas, neste ensaio vou me deter em falar sobre música brasileira, tão rica e tão maltratada por essa indústria cultural que transforma tudo em um produto para o mercado.
Na história da música brasileira sempre existiu música ruim e música boa, nem todos os artistas que gravaram neste país eram bons artistas. Houve um período em que a nossa música era um complexo de composições satíricas de cunho carnavalesco e que por mais que fossem animadas e engraçadas, eram musicalmente ruins. Também tinha uma gama de músicas extremamente piegas, que cantavam as dores provocadas por desalentos e desilusões amorosas.
O que podemos nos orgulhar sempre é da diversidade musical, uma característica cultural do nosso país continente, onde cada região desenvolveu uma musicalidade própria, todos com a base no samba, mas, com particularidades regionais. Mas, mesmo o samba, principal música brasileira, sempre foi adequada aos interesses do mercado fonográfico e isso fez dele bom ou ruim, a depender de como a sociedade aceitasse as adequações. Se o público era mais exigente uma música com mais qualidade, se o público é menos exigente uma música com menos qualidade.
E sempre foi assim, um tipo de música para todo tipo de público. Isso até muito recentemente, década de 1990 para ser mais preciso. Desde a década de 1950 a classe dirigente que é quem também domina a indústria fonográfica, produzia duas músicas neste país, uma para um público menos exigente e outra para um público mais exigente, por exemplo, década de 1950, tinha os cantores do rádio, que eram grandes cantores e cantoras, como Nelson Gonçalves, Agnaldo Timóteo, Ângela Maria, Marlene, que tinham lindas vozes, mais cantavam músicas bem simples, com dois ou três acordes apenas, em uma ou duas escolas, mas, também havia a Bossa Nova, com cantores com vozes menores, mais com músicas complexas, com vários acordes, apesar de poesias também simples, mas, combinadas às melodias e harmonias ricas se tornavam belas obras musicais.
Na década de 1960 a marca foi a música de muita qualidade, TEATRO DE ARENA, CPC DA UNE, TROPICALISMO E A BOSSA NOVA, e a indústria fonográfica criou a JOVEM GUARDA, uma musicalidade para se contrapor aos movimentos estéticos que ganharam uma caráter popular e de esquerda. Nasce neste momento a MPB (Música Popular Brasileira), nome dado a toda música com mais qualidade artística/cultural a partir desta década. Mas, que também pode ser uma simples classificação para todo tipo de música popular gravada no país, seja ela boa ou ruim.
Mas vamos ficar aqui com o primeiro conceito de MPB. Nos anos 70 a MPB sofre um grande baque. A ditadura civil militar havia se instalado em 1964, nos primeiros dois governos militares apesar das perseguições já terem iniciado, mais foi no AI5 em 1968 que os militares passaram a perseguir toda a produção artística/cultural no país, através da “CENSURA”, toda a produção artística, jornalística, educacional, passou a ser vigiada pela ditadura e na década de 1970 as marcas desta censura começam a aparecer, somente a música de qualidade questionável passa a ser liberada no país. Maior parte dos artistas da MPB não tinha liberdade para gravar suas músicas, mesmo artistas da música brega eram censurados. Um número considerável de artistas brasileiros passaram a compor em inglês para fugir da censura militar. E nossa música foi invadida pela cultura norte-americana.
O pior que na década de 70 do século XX o que se tinha de melhor na música brasileira era aquilo que foi determinada pela cultura norte-americana. Artistas brasileiros que faziam sucesso era os participaram da Jovem Guarda, um movimento estético que copiou o rock anos 50 dos Estados Unidos e que tinha como espelho a pior fase dos The Beatles e a música brega que era destinada ao público com menos escolaridade. Grandes artistas a exemplo de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Novos Baianos, até conseguiam gravar, mas, seus trabalhos não eram visto pela grande mídia e se tornava apenas uma produção para um pequeno grupo que continuava pesquisando música, ouvindo música alternativa, as rádios e televisões só mostravam o que era permitido pela censura militar.
Chega a década de 1980, aí eu já estava na ativa! Mas, a nossa música foi subsumida pela cultura norte-americana, o que não quer dizer que tenha se tornado ruim, só perdeu a identidade brasileira. A ditadura civil militar também estava no fim, enfraquecida e agonizante, ventos de democracia voltavam a soprar no país. A música da Bahia começa a ganhar um espaço nunca antes conquistado, e revigora a produção musical nativa, com a cara do Brasil, mas, o que mais chama a atenção na década de 1980 é que novamente a diversidade cultural em nossa música reaparece. Todos os estilos tinham lugar na mídia da melhor música à pior composição todos tinham espaço para mostrar seus trabalhos e o povo tinha direito a fazer as escolhas que mais lhe conviesse.
Tínhamos Gilberto Gil, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Luiz Caldas, Gerônimo Santana, Sarajane, Gal Costa, Fábio Junior, José Augusto, Odair José, Amado Batista, Maria Bethania, Elba Ramalho, Banda Cheiro de Amor, Legião Urbana, Inocentes, Joana, Rosana, Roberta Miranda, Sula Miranda, Gretchen, Sidney Magal, todo mundo tinha seu público, as pessoas tinham direito a escolha, quem quisesse escolher música ruim para ouvir, era um problema de gosto pessoal, de formação cultural pessoal. Aí sim a “questão de gosto” realmente valia, pois, havia opções de escolha.
Mais a partir de 1987 este cenário começa a mudar, a mídia corporativa e a indústria fonográfica por uma opção política abandonam a perspectiva da democracia cultural, da diversidade de estilos e passa a produzir um estilo único para ser ouvido pela população, chegamos ao período dos movimentos estéticos únicos. Primeiro foi o Country Sertanejo, surgiu a dupla Chitãozinho e Chororó e a partir desta dupla pipocou pelo país uma enxurrada de duplas country sertanejas, todo o espaço da mídia era aberto para este estilo musical, os espaços foram se fechando para outros estilos, até o pop rock do sudeste perdeu espaços para o novo e único estilo, que agora era hegemônico, a outra opção musical de caráter nacional era o Axé Music da Bahia.
É claro que ainda existiam outros estilos, mas, a grande mídia tinha muito mais espaço para o country sertanejo e o axé music do que para qualquer outro estilo, e a população perdeu o direito a escolha. Este é o grande problema do processo homogeneização da música, a população perde o direito a escolha. Aí caro leitor a “questão de gosto” desaparece, pois, o gosto passa a ser definido pela grande mídia, os pensadores da Escola de Frankfurt, chamam este processo de “indústria cultural” e formação de uma “cultura de massas”, a produção de uma cultura determinada pela grande mídia e imposta à população, de cima para baixo.
Nos anos 90 esta lógica midiática se manteve, os proprietários da “indústria fonográfica”, e produtores da “indústria cultural burguesa”, continuam mantendo o padrão de produção de uma homogeneidade musical no país. Percebendo que havia ficado um vácuo social e aqueles setores mais exigentes e criteriosos da população não tinham uma musica para ouvir, e aí se abriu espaço para uma nova geração de artistas da MPB, a primeira metade da década de 1990 surgem bons artistas, que disputavam espaços com artistas medianos e artistas bem ruins. Ao findar esta década aí a indústria fonográfica assume de vez o que pretendiam a muito tempo, passaram a criar o estilo musical, tiraram qualquer oportunidade de escolha da população e criaram uma hegemonia definitiva dos estilos criados na grande mídia e impostos como cultura de massas.
Desde os anos 2000 até hoje em dia a música brasileira deixou de ser uma música popular para ser uma música de massas. Só se ouve aquilo que as mídias tem como padrão estético, o que as plataformas empurram como “verdade” para o público. Passou a se criar estilos, “pagode” “forró universitário e forro eletrônico”, “funk”, “arrocha”, cada um em seu tempo e espaço demarcado, estes estilos só se encontraram quando um estava desaparecendo e o outro aparecendo, e por fim o “sertanejo universitário” que é a fusão destes outros em um único estilo horroroso, com cantores e cantoras ruins, musiquinhas nada a ver, chatas pra caramba, mas, ouvidas em todos os cantos do país e por toda a população.
Isso não significa que não tem artistas fazendo uma música com mais qualidade, importante dizer que dentro da lógica do mercado, tentando se manter vivos na perspectiva mercadológica, mas, fazendo um trabalho alternativo, mas, sem espaço midiático são ouvidos por um grupo seleto de pessoas que pesquisam nas plataformas nomes que não são os que aparecem na grande mídia, que ao contrario do que se pensa ainda tem um poder muito grande de atração.
Por fim, e só para concluir, existe sim música ruim, atualmente toda a música de sucesso na sociedade brasileira é ruim, são músicas extremamente simples, com dois ou três acordes, arranjos simples, na maioria produzidos em sintetizadores, poesias paupérrimas, melodias horrorosas, pobres em harmonias, e artistas de medianos para ruins, ninguém que mereça está na galeria dos grandes artistas brasileiros. Uma produção midiática de massas e sem nenhum compromisso com a arte, apenas um produto para o mercado acumular muitas riquezas, já que a indústria de entretenimento gera muita riqueza.
Isso é a música brasileira atual, um produto extremamente rentável que movimenta milhões todos os anos, para que um pequeno grupo de pessoas possam acumular cada dia mais dinheiro. A arte, a diversidade cultural brasileira, se perderam neste mundo de negócios e o que está aí não representa o povo, mais é abraçado pelo povo. Desta forma vamos vivendo até que surja um movimento estético que retome a riqueza cultural do país e que nasça no meio popular e ganhe o “status” de cultura musical popular brasileira.
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