POR PROFESSOR JOÃO PAULO
Há alguns anos, mais precisamente há sete anos eu estava em sala de aula, no primeiro dia do ano letivo, numa turma de 3° ano do ensino médio, falando sobre a importância da filosofia na formação dos estudantes enquanto ser social, e no meio de minha fala introdutória um aluno me perguntou se eu era “comuna’, achei estranho, mais respondi de bate pronto, sou sim, não sou marxista ou materialista dialético, mais sou um Cristão Comunista. Sem entender bem o que era um Cristão Comunista ele seguiu me indagando, “como pode ser Cristão e comunista”? E eu também de bate pronto respondi, sou Cristão Católico alinhado com a Teologia da Libertação, neste momento outro estudante me questionou, “eu sou católico e a Teologia da Libertação é muito questionada hoje na Igreja”. Novamente de bate pronto respondi: questionada por quem? E o jovem também de bate pronto me respondeu, “pelo clero”.
Diante das indagações fui obrigado a mudar o meu planejamento de aula para atender a discussão que foi trazida pelos estudantes, ser professor não é tarefa fácil, às vezes somos obrigado a improvisar, como um ator faz, quando alguém comete um erro durante a peça, ou durante a gravação de um esquete para TV ou para o cinema. E de bate pronto, tive de seguir na linha que me fôra proposta pelos estudantes empolgados ali. Neste momento da história, na ultima década até os dias atuais, é tão difícil estudantes que interagem na aula que qualquer oportunidade que surge temos que aproveitar e valorizar a participação desta galerinha. E não tive dúvidas naquele momento, rapidamente mudei a direção do planejamento para não perder o taime da rapaziada.
O aluno que havia me interpelado primeiro, voltou ao ataque, “explica isto de ser Cristão e comuna e o que é Teologia da Libertação”? Olhei para ele e disse, vou responder ao colega aqui e na resposta já te respondo também, pode ser? Ele me disse que sim e seguir dialogando com a galera. Comecei a responder ao jovem, dizendo, não tem como ser Cristão e ser contra a Teologia da Libertação, se algum padre, ou qualquer membro do clero se coloca contra esta forma de ser Igreja, ou ele não conhece o verdadeiro rosto de Jesus Cristo ou está mal intencionando, fui categórico em afirmar isto, já pra dar um susto, pra mexer no fundo do coração da criança.
E ele, “porque professor”? Aí eu disse: a Teologia da Libertação é o jeito humanizado de compreender o Evangelho. Quem é Jesus? O filho de um carpinteiro e de uma dona de casa, pobres, de uma pequena vila de nome Nazaré, escravo do império romano e oprimido pelos poderosos do povo Judeu. Um trabalhador como todos nós somos hoje, também oprimidos, pelos poderosos de nosso país, e dominados por uma nação rica e imperialista. É neste contexto que Jesus nasce. Ainda criança teve de fugir para uma terra distante para sobreviver, se tornou um refugiado político antes de completar um ano, ficou 12 anos vivendo como exilado. Voltou para sua terra natal, cresceu, viveu na pobreza, sendo explorado, vendo seus pais, pagar impostos sem ter nenhum retorno. Quando se tornou adulto, iniciou sua missão salvífica e três anos depois, foi preso, condenado a morte, torturado e humilhado pelas ruas, até ser crucificado e assassinado. Como tantos jovens de hoje em dia em nossas cidades, como pode alguém negar uma Teologia que combate todas estas situações e defende que devemos amar plenamente aos nossos irmãos?
Isso é Teologia da Libertação, neste momento toda a sala estava em silencio, se não participando da aula, mais ouvindo. E é isto que eu defendo, quando digo que sou Cristão comunista, uma teologia que lute para que um dia todos possam viver como irmãos no Reino Definitivo de Deus, onde “todos tenham vida e vida em abundancia”. Que possamos viver com igualdade, com liberdade, em um país mais fraterno, mais solidário, sem fome, sem violência, sem opressão. Só consigo compreender a fé Cristã se for nesta perspectiva, seguindo a risca os ensinamentos de Jesus Cristo.
Claro que eu não fui tão eloqüente como estou sendo aqui, escrever é sempre mais fácil para mim do que falar, mas, foi exatamente isto que eu disse e me fiz entender. Certamente para muitos ali na sala foi um surpresa, a maioria nunca havia ouvido falar em Teologia da Libertação e nem que o Cristão poderia ser comunista, a maioria tinha uma visão equivocada sobre comunismo, passada pelas fake news das redes sociais. Aí passei a explicar detalhadamente o que é o comunismo, para tentar desmistificar um pouco esta palavra, tão mal utilizada na última década. Foi bem interessante esta aula.
Introduzir este ensaio com esta narrativa sobre minha aula que desencadeou numa discussão sobre Teologia da Libertação para escrever sobre esta forma de ser Igreja e sobre este olhar sobre a fé Cristã que hoje é negligenciado por um contingente significativo dos Cristãos em nosso país, principalmente pelos Católicos, onde nasceu a Teologia da Libertação.
Mas, particularmente só consigo compreender a fé Cristã na perspectiva da Teologia da Libertação, não consigo conceber o Cristianismo sem a premissa da Libertação integral do Ser, como Jesus Cristo anunciou, “Eu vim para que todos tenham vida, vida plena e em abundancia” (João 10: 10), e tanto as escrituras sagradas quanto a tradição dos primeiros Cristãos corroboram comigo.
Na Bíblia (Novo Testamento), temos várias passagens que nos fala sobre o Reino de Deus, o reino do amor em plenitude, do cuidado com a vida, o Reino do “amai uns aos outros como Eu vos amei” (João 13: 34-35) e este deve ser o princípio estruturante da fé Cristã. Se amarmos uns aos outros com esta plenitude, não teremos oprimidos e opressores, patrão e empregado, acumulação de riquezas e miséria, explorados e exploradores. Esta é a estrutura do Reino Definitivo de Deus aqui na Terra, e o papel dos Cristãos é lutar para construir este Reino, que não está circunscrito para uma vida após a morte, ele deve acontecer na história humana, deve ser a continuidade da missão de Jesus Cristo.
Isso é fazer Teologia da Libertação, é esta a perspectiva trazida por esta teologia que hoje quase nunca ouvimos falar em nossa Igreja. Precisamos voltar a falar da Teologia da Libertação, anunciar a toda gente a boa nova da liberdade integral do homem. Cabe a nós difundirmos a Teologia da Libertação, fazer esta linha de pensamento voltar a ser a base do pensamento da Igreja Católica como foi durante a década de 1980. Discuti nas bases sociais este jeito de ser Igreja e lutar incansavelmente pela construção do Reino Definitivo de Deus aqui na Terra.
Esta missão foi nos dada por Jesus Cristo, “Ide pelo mundo e anunciai o Evangelho a todas as criaturas” (Marcos 16: 15-18), e assim devemos viver a nossa fé, apresentando o Deus da vida plena e o seu reino a todos os homens e mulheres, até que conquistemos em definitivo o Reino Definitivo de Deus.

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