POR PROFESSOR JOÃO PAULO
Pôncio Pilatos em uma conversa particular com Tito Lívio sobre os costumes, crenças e fé dos Judeus, disse que era muito “pomposo” rir, achar engraçado todas as tradições da fé judaica, já que Lívio promovia peças teatrais ridicularizando a religiosidade do povo dominado e escravizado por Roma. Certamente ele acreditava que aquela fé podia ser um ótimo mecanismo para motivar os judeus a se rebelarem contra o poder de Roma. Pilatos estava errado, a fé judaica não os motivavam a lutar por sua liberdade, ao menos não motivava a maioria dos judeus, somente os Sicários defendiam a luta armada contra os romanos, os outros “partidos” que formavam os grupos sociais daquele povo, estavam dispostos a aceitar a dominação.
Os Saduceus, que mantiveram seus privilégios sócio-econômicos e políticos na sociedade, mesmo com a dominação romana, aceitavam a dominação e procuravam adequar seu modelo de vida à cultura romana. Os Fariseus, doutores da Lei, responsáveis pela manutenção da fé judaica, se preocupavam em manter a sociedade como estava. Dominada por uma potencia política, econômica, imperialista internacional, desde que estes dominadores permitissem a continuidade da religiosidade judaica e garantisse este grupo social mantivessem a hegemonia cultural do povo judeu e parte do soldo dos impostos cobrados ao povo mais pobre da Judéia e da Galiléia.
Quem realmente sofria com a dominação romana sobre Israel eram os Zelotes, maioria da população, formada por trabalhadores pobres, mulheres que eram oprimidas pela própria lei judaica, crianças obrigadas a trabalhar desde a infância. Os Zelotes queriam mais do que tudo a liberdade em relação aos romanos, mas, também ansiavam por uma mudança na estrutura da sociedade, em que deixassem de ser explorados também pelos Saduceus e Fariseus. Este grupo social, ou “partido”, esperava a vinda do Messias, o libertador do povo. Este grupo era formado por homens pobres, analfabetos, ou com pouco conhecimento formal, mulheres educadas para servirem seus maridos, não eram vistas como cidadãs.
Foi deste grupo social que surgiu o grupo que ficou historicamente conhecido com Sicários. Este nome se deu em função da arma que usavam, facões curvos que eram chamados de Sicas, e este grupo de zelotes defendiam a luta armada contra o Império Romano. Entendiam que os seus lideres, saduceus e fariseus eram corruptos, subservientes a Roma e que somente a revolução armada libertaria os judeus da escravização por Roma.
Feito este pequeno histórico, volto ao tema que me motivou a escrever este ensaio. Aqui no Brasil vivemos uma condição social bem próxima da realidade vivida pelos Judeus no período em que Jesus Cristo vivia entre eles. Aqui também temos uma nação imperialista que domina a sociedade brasileira, na realidade este país foi invadido em 1500 e de lá para cá, Portugal, Espanha, França, Holanda, Inglaterra e Estados Unidos, já dominaram o Brasil respectivamente. Mas, aqui sempre teve os saduceus, homens ricos que só querem ficar ainda mais ricos. Fariseus, intelectuais de direita, que utilizam do saber para fazer dinheiro e por isto aceitam o domínio do país imperialista estrangeiro. E temos o povo, a grande massa populacional que historicamente é oprimida, explorada por todos estes exploradores.
Assim como no tempo em de Jesus a ignorância sempre foi à arma usada pelos exploradores para manter os explorados sobre controle. Ter um povo dominado, oprimido, explorado e com baixíssima capacidade de compreender sua realidade é a forma mais fácil de garantir a manutenção do processo de opressão sem resistência dos oprimidos. Nós que somos militantes de esquerda, a vanguarda da classe que vive do trabalho, já sabíamos que a massa da população brasileira é ignorante. Jesus Cristo também sabia quando iniciou seu ministério pela libertação do “homem todo e todo homem” que se depararia com uma massa ignorante e descrente de sua capacidade de fazer transformação, mas, ele tinha o poder de Deus consigo e passou a operar milagres para que as pessoas compreendessem que ele era o Messias. Mesmo assim, foi perseguido pelos saduceus e fariseus, que conseguiu colocar o povo que ele tanto ajudou contra ele, no momento de sua prisão e condenação a morte na cruz.
Repetindo a história, claro que aqui não faço comparações com Jesus Cristo e seus discípulos, mas, os saduceus e fariseus de hoje, também conseguiram jogar sobre nós, a vanguarda do proletariado, a mácula de que somos os pecadores, mentirosos, comunistas malvados, que queremos plantar uma ditadura no país e o nosso povo, também ignorante, aceitou a todas estas mentiras como se fosse uma verdade absoluta e boa parte deles, quase a metade do país passou a nos condenar, o processo eleitoral mostrou isto, precisou que nós que sempre estivemos ao lado do povo, nos aliássemos com setores menos atrasados da burguesia para salvarmos o país dos saduceus e fariseus, (burguesia fascista trazendo para nossa realidade) que dominou o país após o processo de golpe de Estado que culminou com o falso impeachment de Dilma e com a farsa ilegal da prisão do Lula.
A questão é que nós já tínhamos consciência de que o nosso povo também era ignorante, despreparado para a participação política, analfabetos funcionais. O que nós não sabíamos ainda, era a dimensão do mal que foi produzido nas mentes de parcela significativa da população durante o processo golpista que culminou em 2016 e 2018. Claramente o estrago foi muito maior do que alguns de nós imaginávamos. Sinceramente eu já esperava por isto, pois, sempre fiz as analises sobre política a partir da perspectiva cultural e sempre afirmei que a burguesia havia criado uma cultura da idiotização radical sobre o povo brasileiro, hoje eu acredito que esta cultura seja global.
Ontem dia 02/11/2022, três dias após o encerramento do processo eleitoral ainda estava em curso um processo de revolta dos eleitores e seguidores do fascismo no país desrespeitando os resultados das urnas, desrespeitando o processo democrático e tentando de alguma forma criar um clima de convulsão social no país, assim como foi feito em 2014, quando o candidato Aécio Neves iniciou um processo que culminou com o desfecho do golpe que havia começado com a farsa do “mensalão”. Havia uma áurea golpista no país, desde 2013 quando a grande mídia conclamou eventos pseudo populares por todo o país contra a presidente Dilma Rousseff, processo que foi chamada de “jornadas de junho”, mas, eu chamei de marcha dos idiotas.
Estes idiotas, já no dia 31/10/2022, passaram a fazer manifestações questionando o resultado das eleições do dia 30. Sob uma argumentação idiota de uma suposta fraude eleitoral, discurso que já vinha sendo trabalhado pelo presidente fascista Jair Bolsonaro e seu gabinete do ódio instalado no palácio do planalto desde que tomou posse em 2019 ocupou estradas por todo o país, fechando estas estradas como se representassem a categoria de caminhoneiros, sabemos que foi uma minoria, funcionários do agronegócio, que tenta inflamar o país acreditando estarmos ainda vivendo sob a conjuntura de 2014, não estamos! E exatamente por estarmos em outro momento histórico os movimentos não vão da certo, o resultado eleitoral já foi aceito por todos os países e por todas as lideranças mundiais, internamente, somente o presidente fascista ainda não admitiu a derrota eleitoral, mas, seus apoiadores mais próximos já se pronunciaram aceitando a derrota eleitoral e alguns já encaminham acertos políticos com o presidente eleito.
Mas, as cenas que assistimos ontem em todo o Brasil, após a convocação da rede fascistoide para ocuparem as frentes dos quartéis das forças armadas, “pedindo uma intervenção federal com o presidente Bolsonaro à frente”, mais uma vez sabe-se lá o que isto quer dizer, foram de fato cenas pitorescas, no melhor estilo comédia pastelão norte-americana. Postei em um grupo de Whattsap um áudio falando sobre o que vi aqui em frente ao Tiro de Guerra algo com este teor cômico e um companheiro chamou minha atenção para os riscos políticos que isto representa, já que este circo aconteceu em quase todo o país, o que mostra a que a base bolsonarenta está articulada e mobilizada.
Mas, não dá para não rir de algumas pessoas, vestidas com a camisa da seleção brasileira, marchando de forma muito engraçada em frente ao Tiro de Guerra, enquanto o carro de som toca “eu te amo meu Brasil, eu te amo, meu coração é verde, amarela e branco, azul de anil” OS INCRIVEIS, enquanto alguém com uma voz desafinada até para gritar dizia, “QUE BONITO, QUE LINDO”. Aí me reportando ao início deste ensaio, e lembrando a frase de Pôncio Pilatos a Lívio, realmente “é pomposo rir desta cena”, acontecimentos como estes devem ser levados a sério por nós que temos consciência de classe, consciência do papel político da classe que vive do trabalho e que estamos na “vanguarda do proletariado”, mas, que a cena foi muito hilária não resta dúvidas.
Mas, este companheiro está coberto de razão. Podemos até achar engraçado acontecimentos com estes, mas, não podemos menosprezar o poder de articulação desta horda idiotizada, que certamente não vai lograr louros nestas ações antidemocráticas, pois, não existe uma conjuntura favorável a eles nem no Brasil e nem no mundo. Mas, estas mobilizações, mesmo que patéticas e esvaziadas em relação à quantidade de votos que os fascistas obtiveram nas urnas e em relação a outras mobilizações que tivemos anteriormente, mostra que não podemos negligenciar esta gente.
O nível de dominação ideológica e cultural que se criou após o processo golpista no Brasil do século XXI é muito maior do que imaginávamos. Acredito que a seita fascista agora derrotada eleitoralmente vai voltar para o tamanho que realmente tem, mas, mesmo perdendo força, e voltando para seu tamanho real, ainda é grande o suficiente para fazer muito barulho e precisa ser combatida permanentemente por nós que defendemos um modelo de sociedade mais fraterno, mais justo, mais igualitário. No mínimo esta horda perversa e eivada de ódio, tem hoje o mesmo tamanho que nós, a esquerda brasileira, sabendo que ela conta com o apoio irrestrito dos setores religiosos pentecostais e neopentecostais e não mais só dos segmentos protestantes, hoje estas correntes fundamentalistas estão transversalizadas em todas as religiões que permeiam o tecido social brasileiro.
Estes fundamentalistas certamente não sabem o que defendem, mas, certamente vão fazer tudo que os líderes mandar, e se a deliberação for para se alinharem as células neonazistas que se espalharam pelo país eles irão se alinhar. Não foi à toa que vimos cenas medonhas desta galera marchando feito imbecis nas ruas, não foi à toa que vimos um grupo até numeroso de brasileiros e brasileiras cantar o hino nacional com a mão direita em riste como os nazistas da Alemanha de Hitler fazia, a bem da verdade, mais da metade daquelas figuras não sabiam a simbologia do gesto, mas, fizeram porque foram levados a fazer por lideres que sabiam o que estava sendo simbolizado naquele momento.
Neste sentido, o chamamento feito pelo compas Mazinho está corretíssimo, daqui para frente precisamos está em estado de mobilização permanente, precisamos assumir o papel de vanguarda e iniciar um amplo processo de formação de novas lideranças, precisamos unificar os movimentos populares, os sindicatos, a esquerda de forma geral, valorizar mais o que nos convergem do que o que nos divergem e ocupar todos os espaço políticos que perdemos em função da ação golpista da burguesia brasileira. Sigamos lutando e sigamos juntos por uma nação mais fraterna, mais justa e mais igualitária.
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