POR PROFESSOR JOÃO PAULO
Tem um aspecto que talvez não tenha sido levado em conta pela maioria dos espectadores e telespectadores dos jogos da copa, a torcida nos estádios, e vou mostrar o porque da importância disto. Eu tenho assistido a quase todos os jogos, só deixei de assisti dois jogos até o momento e tenho prestado muita atenção na presença da torcida nos estádios.
Sabemos que o preço dos ingressos em copas do mundo são sempre muito caros, na verdade, tudo que é produção cultural se tornou muito caro. Li em vários canais da Internet e também assisti na televisão, em várias reportagens, que a copa do Catar tem os ingressos mais caros de todas as copas, 45% mais caros que os ingressos da última copa na Rússia. Desta forma é claro que só irão assisti aos jogos ao vivo, os torcedores que tem maior poder aquisitivo.
Então me ocorreu que deveria observar quem estava nas arquibancadas, qual o público dos vários países que disputam o campeonato mundial, se fariam presentes nas arquibancadas dos estádios, e estou fazendo isto. Não para minha surpresa, pois, já imaginava que fosse desta forma, a maioria absoluta dos torcedores nas arquibancadas são brancos. A exceção das seleções da África Central e Ocidental, Senegal, Gana e Camarões, que naturalmente, os mais ricos são de maioria negra. Mesmo seleções como Costa Rica, Equador, França, Brasil, onde a maioria dos atletas são negros ou mestiços, a Arábia Saudita e Catar que tem atletas, com a pele escura e negros, os torcedores são brancos em sua maioria.
Esta percepção fica mais evidente no momento em que você olha a seleção do Equador, em que 95% dos jogadores são negros, mas, não tem torcedores negros na arquibancada. Nesta copa do mundo a novidade é o México, que ao menos no primeiro jogo, não tinha nenhum jogador aparentemente descendente dos povos originários no time titular e nem torcedores com fisionomia destes povos, só retificando, no jogo de hoje contra a Argentina, vi dois ameríndios na arquibancada, ao menos foi o que foi visto na primeira partida do país da América Central, mas, que está politicamente na América do Norte.
O que está situação demonstra, deixa claro é a condição social de racismo estrutural e também econômico a que o mundo está submetido. Mostra a face mais perversa do capitalismo, e como este modelo de desenvolvimento é desigual. Os negros, os mestiços, os pardos podem até serem os protagonistas dentro do campo, serem as principais atrações do espetáculo. Mas, a condição sócio-econômica dos seus iguais em seus respectivos países, não lhes permitem participar da festa do futebol mundial se não estiverem dentro das quatro linhas do campo, pois, a grande maioria dos negros, dos povos originários, dos mestiços de todo o mundo, estão vivendo na condição de pobreza e até de pobreza extrema.
Por que não vemos nos estádios do Catar os trabalhadores que construíram os estádios? A copa do mundo no país mais rico do mundo, quando se avalia a renda per capita por habitantes, é um cruel retrato do capitalismo.
Esta é a sensação que a observação das arquibancadas dos jogos da copa do Catar nos trás. O capitalismo é perverso com toda a classe trabalhadora, mas, certamente ele ainda é mais perverso com todos os não brancos do mundo. Somos nós que estamos muito mais alijados dos direitos fundamentais para uma vida digna, dos direitos mínimos que nos garanta qualidade de vida, somos nós os mais oprimidos por esta sociedade dominada pelos brancos e pensada somente para eles.
Sei que até parece que estou minimizando a questão do racismo estrutural a partir do futebol, mas, é extremante simbólico esta representação de uma realidade que é mundial. Neste sentido, é fundamental, que começemos a entender o racismo, não só em função da cor da pele, não só em função das diferenças étnicas, como algumas teses apontam.
É fundamental que passemos a perceber as questão de classes, que servem como base estrutural para o racismo. E a partir deste pressuposto, compreender que a superação do racismo passa essencialmente pela superação do modo de produção capitalista, este é o caminho mais sólido para a luta contra o racismo e o movimento contra o racismo em todo o mundo precisa tomar consciência de que a luta pela igualdade racial é também a luta por um novo modelo de sociedade, por um novo paradigma civilizacional, parafraseando o discurso dos PANTERAS NEGRAS, "nos não queremos um capitalismo negro, lutamos pelo socialismo".
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